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quinta-feira, 21 de março de 2013

Pensamentos vãos. Vãos?




Aqui estou de volta.

Amanheci com a inquietude de escrever, e decidi reativar o blog.

Espero que, os que me lêem, ainda que poucos sejam, apreciem meu retorno. E que tantos outros me comecem a ler.
Gosto de ler e escrever e a isso estou retornando.

Abastecerei semanalmente o blog, dessa vez é verdade.





Sobre a beleza e outras incertezas.

Amanheci, com a tradicional dicotomia me corroendo os neurônios.
Me senti péssimo quando notei que o sol me batia na cara, anunciando que eu dormira mais, MUITO mais do que deveria. Deveria porque?? O que me obriga a acordar cedo? Porque eu não posso acordar tarde sem sentir vergonha de mim mesmo porque tem gente trabalhando a essa hora?

Sento na cama, o suor escorrendo vagarosamente pela testa, preguiçosamente, como quem acaba de acordar e não tem objetivo nenhum para o dia, ele escorre dos cabelos até a boca, onde o sal da sua ociosidade me desagrada. Quando então me batem à porta do quartinho.

- Pode entrar, tá destrancado. – Grito de dentro, sem resposta.
Gira o trinco e o Carlão, sem dar bom dia, já entra falando.
- O ser humano é um puta de um bicho engraçado. – Fala enquanto acende um cigarro. Penso que deve ser o décimo cigarro do dia, quem sabe embalado já por algumas latas de cerveja matinal, quem sabe desde a noite passada de pé? E, inevitavelmente, como julga a humanidade, mesmo aqueles que dizem não julgar, penso – Que vagabundo. – Depois me cai a ficha. Acabei de acordar, de cuecas na cama com o suor me lambendo a testa às 11:30, como posso acusar alguém de vagabundo?
O suor escorre e eu sequer passo a mão para limpar, enquanto pergunto.
- Qual a graça, Carlão?
- Graça de que?
- Do ser humano, porra.
- Ah sim, é hilário, cara, hilário. Tem cerveja aí? – Jogando o cigarro pela janela sem se dar ao trabalho de apagar, ele abre minha geladeira, vazia como uma igreja. – Poots, tá al, hein? – Fazendo um esgar de nojo, observa quanto nada tem na minha geladeira.
- Parei de beber, porra.
- Uuuui, é o bacaninha agora? – Debocha Carlão, fazendo trejeitos de frescura. – Sabe o que a mulher veio me perguntar hoje de manhã? De manhã não, de madrugada, quando cheguei em casa, ainda bêbado? Essa é boa.
- O que, Carlão, fala. – Retruquei, ainda impaciente pelo suor proibido que me escorria a testa vagabunda.
- “Seja sincero. Eu sou bonita?” Olha que merda, meu irmão. QUE BOMBA! Sem enfeitar, sem fazer rodeio...assim como tô te falando. – Saca o segundo cigarro da carteira, acende e fita, pacientemente, a fumaça. – O que me diz?
- Cara, sei lá. Pergunta estranha pra se fazer de madrugada. E você, o que respondeu?
- Aí é que tá, - Levanta Carlão, com objetividade e determinação de político em comício. – Já tive namoradas horrorosas que achava lindas e namoradas lindas que não me diziam nada. Olhei pra ela e percebi que nunca havia pensado nisso. Nosso lance sempre foi outro. Respondi “Nunca tive tempo pra observar se você é bonita ou feia”. No que ela me correu de casa, na base da vassourada. Vê se pode cara, vê se pode.
- Porra, você nem disse que a mulher era bonita? Ela queria ouvir isso, Cara. – Respondi me achando sábio pra caralho, no alto das minhas cuecas e meu desemprego.
- Esse é o pulo do gato. A doida me pede sinceridade o tempo todo. Eu largo um PUTA DE UM ELOGIO e ela não entende. – Apaga o segundo cigarro num copo vazio, onde deixa a bituca, despreocupado.
- Elogio Carlão? Como essa porra é um elogio?
- Pensa, porra. No subjetivo. Se eu não tive tempo de achar ela bonita ou feia, significa que vejo nelas tantas outras razões para estar junto, que a beleza, nem importa, sequer tive tempo de notar.
- Caralho, Carlão. Romântico pra cacete. Explica isso a ela, mais tarde, que ela vai se derreter toda.
- E eu sou lá homem de voltar onde me botaram pra fora? Tomar no cú você e ela. E outra, vou sair daqui, onde não tem cerveja não me sinto bem vindo. – Diz, abrindo a porta, em franca retirada.
- Da próxima vai ter. Compro umas e deixo aqui pra quando você aparecer. – Minto para agradar.
- Sabe o que é mais engraçado? Ela é linda, cara. Só não tinha parado pra pensar. – Diz enquanto bate a porta. – Fui, e vê se compra cerveja da próxima vez, amigo de merda da porra.

Carlão saiu e me deixou, além do cheiro de cigarro e das cinzas no chão, um pensamento inquietante.
Quão paradoxal é o ser humano. Tenta, a todo tempo, objetivar o subjetivo.
Sou bonito, ou feio? Sou esperto, ou bobo? Sou vagabundo, ou não?
Se tudo é tão relativo, me questiono se em algum momento a namorada do Carlão vai entender o quanto foi bonito o que ele falou, ou se vai apenas se concentrar no que queria ouvir, enquanto pedia a sinceridade para a qual não estava preparada.
O subjetivo e o objetivo estão separados por um tênue, cortante e relativo “porquê”. Que pode pôr em cheque toda e qualquer certeza que dizemos absoluta.

Por que a mulher não seria bonita? Por que o Carlão não voltaria ao apartamento dela? Por que se pede a sinceridade quando se quer um agrado? Por que esse suor só me incomoda quando me salga a boca?

Pensado isso, finalmente limpo o suor da testa e falo comigo mesmo. – Você tá pensando demais. Precisa é de um emprego.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Diáspora sensorial


Olá novamente, amigos blogueiros.

Eis mais um texto. Misto de poesia, crônica e mera observação de mundo.
Sem mais, segue:





Há dias quem que a poesia se faz mais necessária em nossas vidas.

Amor, paixão. Não há movimento consciente que os impulsione.

É tudo uma questão de ponto de vista.

Os mais nobres sentimentos são vítimas da nossa diáspora sensorial.
O amor – Titã mutante ao qual vivemos buscando, porém somos cegos o suficiente para jamais encontrar - segundo alguns, nasce no coração.
Migra para as mãos que acariciam, se converte em calor e antes que possamos notar já está novamente no peito, onde por vezes descansa no conforto da cama que ele fez.
Há quando ele acorda rápido e abruptamente é paixão.
Inicia uma corrida.
Passa novamente pelas mãos, agora frias, volta ao coração de onde tenta escapar pelas paredes, causando batidas fortes, incessantes, irrequietas...
Navega no sangue por ele bombeado, corando faces, lábios. Borbulhando no sexo, corre para a pele de onde sai pelos poros em gotas doces de suor salgado.

Os pelos em arrepio indicam a onda causada pela pressão de sua passagem. Sua caminhada torna-se ainda menos calma. Seus passos de urgência são traduzidos pelos pulmões que resfolegam palavras doces, por vezes rudes (sem deixar de ser doces, respeitemos a licença poética das sensações) e por outras nem palavras.

Eis que se dá o enlace. E o sensorial é elevado à incalculável potência.
E uma força centrípeta sem par nos deixa sem certeza alguma, além da que somos epicentro.

Neste momento, alguns dizem que este gigante despatriado se acomoda no peito, apertando-o em forma de saudade, outros dizem que se expande pelo corpo todo, o dilatando em satisfação...

Por fim, é novamente uma questão de ponto de vista.



Só para finalizar. assino com essa quintilha e sua assinatura:


Hoje acordei poeta.
Há sempre um poeta em nós.
Feliz fico quando ele desperta,
Pois mesmo não sendo esteta,
Sinto não estarmos sós.

A arte?
Faça-se viva e a entenderei.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Combater o medo gerando medo??




Após longa pausa, volto a alimentar meu blog. dessa vez, ACREDITEM (POR FAVOOOOR) o farei com regularidade semanal.

Eis um texto, não bem humorado como outros que aqui postei, mas de reflexão, como outros aqui já postados.

Espero que gostem, de coração.



Homofobia? Medo de que?

Ontem, estive comentando com um amigo meu – não que faça diferença, mas um amigo homossexual – o apoio de Preta Gil aos PLs 1151/95 e 5003/01, que tratam respectivamente da união estável entre pessoas do mesmo sexo e da criminalização de atos homofóbicos.

A ambos faço questão de expressar o meu total apoio. Mas ainda faço questão de pormenorizar algumas opiniões minhas acerca dos dois projetos.

Quanto ao PL 1151/95, acho curioso observar que os ditos machões, mulheres reacionárias e afins costumam falar dos homossexuais - ou de quaisquer outras pessoas envolvidas em relações homoafetivas - como “gente de gueto”. “Seres” que se encontram à margem da sociedade como a conhecemos.
Interessante é observar que esses seres obtusos não notam que quando se fala em união estável entre pessoas do mesmo sexo está sendo dado um imenso salto para que as relações homoafetivas deixem de ser feitas às escondidas, saindo assim da suposta marginalidade sugerida pela nossa sociedade preconceituosa e de um machismo arcaico.
Tenho diversos amigos homossexuais e os únicos que apresentam problemas quanto à sua opção sexual (ou orientação, como queiram chamar) são aqueles que, impelidos por uma sociedade construída sobre o solo podre do preconceito, tentam negar o que são. Os outros encontram apenas problemas fora deles mesmos, quando se esbarrram com os verdadeiros marginais. Os soldados do preconceito. Pessoas que não se envergonham de – tal e qual nazistas, porém mais escusos e menos corajosos que os mesmos – levantar uma bandeira, geralmente inadmitida e escondida atrás de costumes vetustos, a favor de crimes de ódio. O que nos leva automaticamente ao segundo projeto de lei.

O PL 5003/01, da ex-deputada Iara Bernardi, felizmente aprovado pela câmara e em tramitação atualmente no senado, que pretende criminalizar atos de homofobia é nobre, porém incoerente na sua essência.
A Constituição Federal, que ostentamos como símbolo de justiça desde 1988, define no seu artigo terceiro inciso IV, como “objetivo fundamental da República ” o de “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, ou quaisquer outras formas de discriminação”. Palavras retiradas da própria Carta Magna.
Vejam bem. O povo busca lutar por criminalizar algo que já é crime, de acordo com clausula pétrea, desde 05 de outubro de 1988.

Ainda assim, sou a favor de qualquer ação que busque punir atos repugnantes como espancamento e matança de homossexuais com propósitos apenas justificáveis por pessoas doentes o suficientes para os praticarem.

Sou heterossexual, e digo isso com tanto orgulho quanto diria caso homossexual fosse, e justamente por ser heterossexual, farei mais algumas observações com grande propriedade:

Os ditos “machões” que acham justo espancar ou escorraçar os por ele chamados de “veados” e “sapatonas” têm uma heterossexualidade MUITO frágil. Será que eles precisam mesmo que a sua heterossexualidade seja vinda de um espólio de homossexuais mortos, cuja herança, por sinal JAMAIS seria destinada a eles?
Para que eles tenham a segurança de se afirmem heterossexuais, precisam erradicar o mundo dos homossexuais?
Para finalizar,vai para os homofóbicos a origem do termo:

Homo = igual; Fobos = Medo.


Ficou claro??

terça-feira, 1 de março de 2011

O que nos assusta afinal?


Caros,

Eis uma questão com a qual me deparo de quando em vez:
O que tememos?
Acordei hoje com este pensamento e súbito me veio essa poesia que decido dividir com vocês:





O medo.


A mim não aflige o medo do mal.

E não digo isso com a segurança dos bravos,
Mas com o pânico dos comuns.

Não me aflige o chifre do demônio,
Ou o soco do boxeador.
Saberei como agir diante destes,
Seja desviando ou absorvendo o golpe.

O que me aflige,
É o espinho secreto da rosa.

Soco do qual não consigo desviar,
E arranhão que merthiolate não cura.


Ângelo Pinheiro

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pensamento de fim de noite.


Boa noite, meus caros.

Estive agora em devaneios poéticos...por fim decidí postá-los aqui.


Espero que gostem.





Relativizando.


Tempo e espaço.

Duas coordenadas regentes.
Meu tempo é vão,
Pois busca no espaço um evento que jamais ocorreu.

E por mais que eu investigue a linha de tempo,
Procurando em cada mínimo espaço,
E nisso gaste todo o meu tempo,
O resultado permanecerá inalterado.

A ciência é implacável.

Ainda assim, sigo pensando.
Esvairei até o último segundo do meu tempo,
E em algum momento pensaremos juntos,
E em uma dimensão outra haverá o evento.

Pois não há lei humana que impeça duas almas de ocuparem o mesmo espaço.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Misantropia, aqui me tens de regresso.


Após uma pausa de festas de fim de ano, volto a escrever para vocês.

Sem mais delongas, segue um conto que escrevi de uma vez. Espero que gostem.

Ei-lo:



O Imbroxável.


Nesse dia, passei horas em frente ao computador. Nada.
Trabalhar com a criatividade é excelente, mas você tem que se adaptar a um estilo de vida bem diferente. Nada pode te abalar. Você não pode pensar em seus problemas enquanto cria um spot para vender uma nova linha de motocicletas - idêntica à antiga, mas em uma nova cor – quando precisa desenvolver um jingle para uma linha de shampoos que não oferece absolutamente nada de novo.
Você precisa esvaziar sua mente de todo e qualquer pensamento pesssoal, mas os meus pensamentos, nesse dia, me açoitavam sem perdão.
Súbito, o chefe abre a porta.

- Brother, já terminou o jingle? – Brother. Era como eu era tratado na agência. Brother, amigo, campeão. Dava até pra, com muito boa vontade, imaginar de fato uma amizade, mas é bem maquinal. Empresarial.
- Ta saindo. – Retruquei, com a criatividade escorrendo em largas gotas de suor pela testa.
- É pra ontem, campeão. Se a gente comer mosca outra agência tem a idéia e a gente perde o cliente. “Vamo lá, Vamo lá”. – E fechava a porta, não sem antes olhar todas as minhas idéias e taxar de triviais, óbvias.

Saí pra fumar um cigarro, tentar pensar. Mas, ao invés de pensar nos shampoos e nas motocicletas, pensava nos meus problemas pessoais.
Não podia pensar nos meus problemas. Tinha que criar uma ideia que levaria uma dona de casa a mudar de shampoo. Tinha que inventar uma forma de fazer um amante de motos optar por uma moto, apenas por esta ser lançamento. Ah, e amarela, claro. Precisava deixar de lado todos os meus problemas, todos os meus dilemas pessoais pra poder trabalhar criativamente. De repente me veio à mente a certeza de mais um paradoxo no qual estava envolvido. Precisava agir como uma máquina pra fazer a única coisa que elas não podem fazer por nós: Raciocinar.

Aquilo me afligiu a um ponto que eu voltei à sala, desliguei o computador e me preparei para sair.
- Meu velho, avisa ao “big boss” que eu saí e amanhã entrego tudo. - Falei ao diretor de arte enquanto checava se tinha dinheiro na carteira. Claro que precisaria de uma cerveja pra engolir esses pensamentos. Nada como uma boa cerveja para fazer um paradoxo descer garganta abaixo e sair na urina.

Tinha bastante dinheiro na carteira e, na mente, uma vontade imensa de me sentir humano. Precisava ver gente.
Fui a um daqueles barzinhos da moda ou “barzinho de paquera” como se chama.
Lá chegando, minha primeira visão foi ele, Carlão. Enquanto fumava seu cigarro e mamava em sua cerveja long neck, olhava para as mulheres que passavam, mas mirava apenas suas bundas. Não o flagrei olhar um único rosto, um cabelo, nada além das belas bundas.
- Quanto maiores melhores, vá por mim. – Falou Carlão, notando que fora observado e indo além, percebendo que eu atentava ao fato dele examinar unicamente as moças indo e jamais vindo.
- Grande Carlão. Sempre de olho na mulherada.
- Rapaz, que é que cê ta fazendo por aqui no dia da pegação? – Perguntou Carlão, me entregando uma cerveja, como de costume.
- Dia da pegação como, rapá? – Respondi a pergunta com outra, aliando a curiosidade do “dia da pegação” à vontade de não responder meu arguinte.
- Dia de sair acompanhado, pô. Quarta-feira. Homem que sai na segunda e na terça, certamente é comprometido ou cachaceiro, mulher nenhuma encosta. Quinta, sexta e sábado é pra quem gosta de farra de fim de semana. Não vale a pena a mulherada colar só pra um flerte a toa. Mas quarta? Quarta é “O dia”. Especialmente esse horário. Somos homens decentes, solteiros e que acabaram de sair de seus trabalhos para um happy-hour, certo? – Disse Carlão, com o seu cigarro firme no canto da boca enquanto a quimera nascia de seus lábios.
- Eu sim. Mas você? Você ta vindo de onde? Todas as suas “hours” são “happy”.
- HAHAHA. Muito boa essa, garoto. – Falou Carlão entre gargalhadas sinceras. – Mas quem sabe disso? Eu, você...alguma das bundas sabe disso?
- Cara, tratando mulher desse jeito, Deus vai te deixar brocha de castigo. – Brinquei, dando risada e pedindo outra cerveja ao garçom.
- Não tenho como broxar amigão. – Falou Carlão, com uma segurança de quem realmente nunca broxaria. – Olha pra aquilo ali. – Disse, apontando uma morena enorme com uma bunda ainda maior.
- Ta. Você não vai broxar porque a mulher é gostosa? É isso que quer sugerir?
- Claro que não. – Disse com mais uma grande gargalhada, como se cada tragada naquele cigarro inflasse seu peito com confiança. – Porque ela não tem detalhe nenhum. Sabe o nome dela?
- Não.
- Nem eu. E nem quero saber. – Enquanto falava eu sentia que a cada novo gole Carlão se enchia mais e mais de sabedoria popular. – Se eu colar nela, vou perguntar e ela vai me dizer, mas não porque eu queira saber, só porque é parte do jogo.
- Nossa meu velho. Quanta sabedoria. – ironizei, mas em verdade todo esse desprendimento exercia um verdadeiro fascínio em mim.
- Sério, rapaz. Você sabe onde ela mora? Se tem filhos? Quanto ela gasta em relação a quanto recebe? Quais os problemas da vida dela? – Disse com um sorriso que só dá aquele que obviamente sabe mais do que você.
- Carlão, me desculpe mas isso não faz o menor sentido. – Mas é claro que fazia, e, discordando das minhas palavras, o brilho nos meus olhos denunciava o quanto fazia sentido.
- Ta bom. Vamos a um exemplo que faça o “cabeção” entender. Num jogo de xadrez, sempre quem está de fora, passa apenas pra dar uma olhadinha, sabe como ganhar, certo?
- Aham, prossiga.
- É porque lhe faltam os detalhes. Ele não sabe quantas vezes esse jogador já colocou uma armadilha para o outro, não sabe quanto o outro jogador é bom, quantas vezes um já ganhou do outro, o que eles estão sentindo. NADA.
- É...faz mesmo sentido. – Falei, enquanto tentava me tornar sábio, virando mais uma cerveja e levantando novamente o dedo em sinal para o garçom.
- Então. Isolando os casos de baixa auto-estima, que gela a mão e amolece o pau, ou eventualidades absurdas, um HOMEM pode perfeitamente broxar diante de uma MULHER, mas jamais diante de uma bunda. – A forma com que ele enfatizava as palavras “homem” e “mulher” e suavizava na palavra “bunda”, deixava bem claro onde residiam os problemas e onde residia a solução. Ao menos para ele, e naquele momento, para mim. Mas ele ainda arrematou. – A bunda é uma mulher sem detalhes, sem problemas.
- É. – Virei a próxima cerveja.

Tanto eu quanto Carlão, calados. Ele observando as bundas e eu, envolto nos meus problemas e no meu paradoxo, só enxergava homens e mulheres. Mulheres que eu precisava convencer a usar novos shampoos e condicionadores e homens nos quais eu precisava criar uma necessidade de comprar motos amarelas. De repente Carlão se levanta, e enquanto vai, em direção a uma bunda, fala comigo:
- É isso aí, amigão. Esqueça os detalhes. Faça como eu, vá atrás das bundas. – Virou uma cerveja e encostou-se numa bela mulher de vestido curtíssimo amarelo.
Ela tinha uma bunda incrível e o vestido amarelo de tecido bem leve parecia colar ao corpo e realçava ainda mais as suas curvas que pareciam calculadas. Realmente seria muito difícil um homem broxar diante de uma bunda daquela dentro daquele vestido amarelo. Talvez broxasse diante de sua esposa que mencionou divórcio na última briga dentro de um vestido amarelo. Talvez broxasse diante da namorada que falou em ter um filho, a despeito das contas cada vez mais apertadas, com o mesmo vestido amarelo....mas diante daquela bunda, JAMAIS.
Carlão parecia muito bem. Sorrisos corriam soltos entre ele e a bunda de amarelo. Ele procurava ouvir pouco do que ela dizia. Gravar apenas coisas básicas. As outras apenas ouvir com um ar contemplativo simulando interesse.

Ao mesmo tempo que Carlão sai com a belíssima bunda, desfilando de um lado para o outro como se não houvessem problemas no mundo, eu saio com o meu paradoxo, minha moto amarela e minha linha de shampoos. Ele certamente não broxaria. Eu, infelizmente, já tinha informação demais.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Deliciosamente burro



Lá vamos nós.

Burro como estou, escrevo esse conto a vocês. E, com as graças da santa ignorância, segue ele, incolume. Sem ser maculado por um pingo de brutal sabedoria, como um Antoine que encontrou toda a sua felicidade, eis um conto burro, aos que merecem.




Eram 16:00 e alguns minutos, mas era noite. Na verdade era noite desde as 9 da manhã. Sabe aqueles dias dos quais o sol independe? Por mais que raie, a intensidade da noite é tanta que o suplanta sem luta.

Esse era o dia.

Andando pela rua, acordado desde as 06 da manhã desse dia dia noite, encontro Carlão.
Com um semblante preocupado carregando uma garrafa de vinho barato no sorriso e outra na mão,a do sorriso vazia, e a outra seguindo o mesmo curso, ele, sardônico, me saúda com a seguinte frase:

- Sabe que hoje, oficialmente, tentaram me marginalizar?
- Salve Carlão. O que manda? Marginalizar como, rapaz? - Perguntei preocupado.
- Você não sabe do que me chamaram hoje... – Falou Carlão, com o sorriso sarcástico no rosto, marcando uma crueldade forte demais pra ser expressa de outra maneira que não com graça.
- O que houve, meu amigo? Larga do vinho e me fala.
- Se largo do vinho estou fudido. Me chamaram de intelectual.
- Grande Carlão!! Intelectual. – Falei, compartilhando o sorriso cruel de Carlão, sem saber direito o porque. – Mas marginal porque? Ser intelectual deve ser bom demais.
- É limitador, porra. Imagine aí. Quanta coisa um intelectual NÃO pode fazer?
- Não pode?Como assim?
- Se eu aceitasse o fato de ser um intelectual, de que forma eu poderia seguir a vida? De que maneira eu ia prestar minhas contas? Quem é intelectual tem uma responsabilidade. É que nem virar adulto. Criança pode brincar, adulto não pode. Criança pode chorar, adulto não pode.
- Caralho, Carlão, que merda você colocou nesse vinho? – Perguntei rindo nervosamente, enquanto estendia a mão em direção à garrafa.
- Sério, meu velho. Você acha que, se eu aceitasse ser intelectual, eu poderia rir das coisas que rio?? E a consciência social? E o senso crítico?
- Porra, nada a ver isso. Não viaje pra outros planetas. - Falei nervoso, quase gaguejando. Engasgado em todos os livros esclarecedores que já havia lido.
- Velho. É sério. Pense bem. Quanta responsabilidade tem uma porra de um intelectual. É ofensivo. A ignorância é uma benção. Quem não sabe, não sofre. Quem sabe e conhece, sofre pelo seu e pelo dos outros. To fora. Passa o vinho. – Disse, me estendo a mão.
- Tem sentido. – Falei a ele, engolindo minha cultura em um longo gole de vinho, passei a garrafa.
- É uma merda, né? – Ri sofregamente. – Mas tem um segredo. Bebe mais.
- Dá essa porra aqui – Estendo a mão e tomo mais um largo gole de estupidez. Branda e macia burrice engarrafada. – Qual o segredo? Fala.
- Aceite NA HORA.
- Peraí. A história não era negar a intelectualidade, porra?
- Claro. Mas, pensando bem, quem seria burro o suficiente pra aceitar a intelectualidade de vez, assim? Pegou? – Disse Carlão, enquanto a minha mente começava a versar sobre burrices e inteligências. A consciência é um desperdício de energia vital.
- Uau. Profundo isso.
- Quem muito pensa, pouco vive...quer beber mais? – Emborca a paz em um canto, enquanto, protegido e trôpego, busca com os olhos outro libertário bar.
- Vamos lá. – Enquanto tropeço a caminho do bar, realizo que verdadeiro intelectuais, conscientes do que está acontecendo no mundo, não iriam beber às 17:30 de um dia de semana...Mas há muito era noite. E a voz precisava calar. Um drink certamente ajudaria.

Rumamos. Bebemos até quase raiar o dia em nós. E, finalmente, dormi sozinho.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O desejo do enlace


Somos malditos - a quem entender possa - e sabemos disso.

A maldição poética não é menos maldita dado o seu lirismo.

Passei a manhã sendo brindado por belos conselhos, pessoas que amo e que me amam, que apenas me querem bem. Ainda assim, cunhado pela maldição em que me encontro, escrevi minhas sensações, na vã esperança de que, colado na tela do computador, o sangue que de mim brota, diminuisse.


Eis mais um poema, sim, estou numa fase poética:




Malditos, menos ela

Maldita seja a amizade pura,
Com conselhos nobres,
Que só nos querem bem.

Já eu não me quero bem,
Quero o bem dela,
Ainda que ela não seja minha no meu querer.

Ainda que a sua existência dentro de mim machuque,
Escalando as minhas entranhas numa fútil tentativa de sair,
Quando a engulo de volta,
Sei que é ela, em mim, o único bálsamo.

Maldigo o bem que me querem,
Maldigo o caminho correto – Que assim me apresentam,
Maldigo a mim mesmo,
Mas jamais maldirei a ela.

sábado, 30 de outubro de 2010

Tertúlia interior




Caros,

Àqueles que têm paciência e boa vontade de me ler, segue um pedaço de minh'alma.
Uma breve poesia que me ocorreu ao olhar para o sol, como ele se apresenta pra mim agora: Lindo, quente e intenso. Com capacidade de queimar - mas jamais intencionalmente - porém mil vezes me queimaria apenas para desfrutar de tanta vida que dele se origina.








Olhos meus


Há algum tempo, conheci olhos.
Olhos vivos e atentos,
Dos quais indebitamente me apropriei.

Nunca fui de me contentar com pouco.
Sempre dado a exageros, corpos não me pareciam tanto,
Quando súbito conheço olhos
Que ao incidir sobre os meus - ou apenas deitar nas minhas palavras, seguindo seu curso viva e atentamente – eram mais tocantes que mil aventuras.

Não sei o quanto daqueles olhos meus
Enxergavam suas as minhas palavras,
Os meus gestos
E os sorrisos de olhares meus.

Deito agora no descampado que ora sou,
No quarto vazio de onde retirei tudo que não mais se faz importante desde que existam eles.
E penso nos olhos.

Em pensamento – quimera anestésica que é – eles são tão meus quanto eu sou deles.
E, onde estiverem, em semi-consciência opto por crer que me enxergam.

No vazio que estou,
Após terraplanar todo o terreno que era meu,
Deposito esses olhos meus onde só eles cabem.

Lá, ainda que tomado por uma gestalt, que se apresenta apenas a quem assim enxerga,
Eles são meus.

E sorrio,
Intensamente como sempre vivi,
E vivamente como em loucos sonhos poéticos,

Sorrio.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

De volta(novamente)







Ok, após grande tempo PARADO, aqui me tens de regresso.


Não gostaria de voltar sem um conto para brindar-vos, porém fazia-se cada vez mais urgente o retorno.
Volto pois, com um pensamento acerca da vida, um tanto quanto poético.

Ei-lo:


Tenho me esforçado, e não apenas Deus como todos os seus representantes que me cercam - sim, falo dos verdadeiros amigos que não acredito serem de origem diversa - são testemunhas de que é verdade, para ser FELIZ nos últimos dias, quiçá meses.


Já disse o poeta (me nego a citar qual) "Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor."

Me aproprio, com perfeita noção de que a paráfrase não chegará perto da poesia original, para dizer que aquele que deseja atingir a felicidade tem que passar por sofrimentos.

Cá estou eu, atravessando o supracitado Cabo do Medo. Desviando dos arrecifes e reconhecendo, a cada dia mais, que os monstros marinhos são apenas frutos da minha imaginação.

A navegação há de ser lenta, pois o meu bojador também demanda cautela, porém a faço com os olhos cheios de novas descobertas, tão cheios que me escorrem e deitam no peito estufado, não conseguindo mais segurar o grito de "terra a vista".

domingo, 1 de agosto de 2010

O pecado do prazer


Olá meus caros,

É interessante como estas duas palavras, apesar do seu significado TÃO diverso geralmente se associam.

Prazer e pecado...devido às leis morais impostas atualmente, existe apenas uma tênue linha que separa os dois. Linha esta EXTREMAMENTE virtual, posto que não se pode determinar o que é prazeroso e o que é pecaminoso para cada um sem se considerar quem é cada um.

Divagações à parte, segue um conto a esse respeito:


O pecado do prazer


Acordo eu em mais um dia chuvoso de Salvador, antiga cidade do sol.
O dia, apesar de chuvoso, era um domingo, e eu vago pela rua, buscando um sentido para o sol que fez a semana inteira deixando apenas para o final de semana as torrenciais chuvas.
Ao passar pela porta do primeiro bar aberto(em verdade esse bar não fecha, como vim a descobrir a seguir) e ouço uma voz conhecida.

- Ô rapaz!! - Grita a voz, me assustando.
- Aqui, ô.
- Grande Carlão - O reconheço primeiro pelo copo na mão e o cigarro na boca, apenas depois dessa breve análise consigo enxergar a fisionomia do meu caro amigo Carlão. - O que me conta de novo?
- estou bebendo em nome de nós todos...os oprimidos do mundo.
- Opa. de que opressão você está falando, meu velho? - Pergunto eu, querendo saber qual o mais novo motivo que o Carlão arranjou para transformar uma bebedeira em um ato de nobreza.
- Bebe comigo. Vai, pega um copo. - Diz Carlão, me passando um copo que ele, prontamente, encheu de cerveja. - Um brinde à morte do prazer. À lenta, gradual e esquematizada morte do prazer.
- Que é que é isso, meu irmão? - Respondi envergonhado, ao notar que TODOS - apesar de todos serem apenas um grupo ínfimo de pessoas tomando café da manhã - estavam nos olhando. Não sei se realmente discordava do que ele falava, ou se apenas me comportava de maneira a amenizar os olhares que fulminavam os nossos matinais copos de cerveja.
- Morte sim. A cada dia mais. O prazer está cada vez mais morto. vamos beber o defunto.
-Desde quando você está com essa idéia, Carlão? - Perguntei, sentando-me e tomando o primeiro gole, na esperança do elixir etílico me auxiliar na compreensão da filosofia do meu amigo.
- Desde sempre. O problema é que antes era metafórico e comportamental...agora está virando legislação. LEGISLAÇÃO, compreende?

A essa altura nos fitavam todos os olhares censores. Um esgar de nojo teimava em escapar do canto da boca, mesmo dos que fingiam não estar julgando, posto que julgar os outros é também um fato censurável.

- Preste atenção no que vou te falar. O prazer é contraproducente. Contraproducente, caralho, leve fé.
- Carlão, explica isso aí que eu não to entendendo nada.
- Deixe eu começar lá do início. Quando pequeno, você nunca ouviu que "você não pode falar com estranhos?"
- Claro, conselho de mãe...natural.
- Se eu não falasse com estranho nenhum...como eles deixariam de ser estranhos? Com quem eu falaria? Com quem minha mãe determinasse que não é estranho? - Falava tropegamente o Carlão, enquanto o cigarro bailava na boca como a filosofia bailava no ar.
- Faz sentido, mas isso as mães fazem pela segurança dos seus filhos, porra.
- Ceeerto! Tá bom. As mães fazem isso pra evitar que o filho se meta em problema, mas se eles obedecessem ao pé da letra, aí sim você ia ver gente problemática...sem amigos, ou sem um amigo escolhido sequer. Já pensou nisso??
- Tá certo, mas insisto na questão da segurança.
- Segurança é o caralho. É o preparatório para a moral castradora e totalitarista. Isso sim. - Gritava Carlão, embolando as palavras na língua amarga pelo cigarro e a cerveja. - Minha avó...sabe com quantos anos ela se casou? 13, com 13 anos. E o pai dela entregou a mão dela a meu avô, sem problema nenhum. Hoje...seria preso como pedófilo.
- Peraí...aí você já tá apelando. As crianças podem ser ludibriadas por adultos mal intencionados...essa lei é para a defesa da criança e do adolescente.
- Tá, tá....você bebe devagar demais. Deixe eu mudar pra um menos polêmico, então. Porque eu não posso fumar em lugar fechado? Porque a porra da gordura trans vai virar ilegal?
- Pronto, você vai citar TODAS as leis criadas em defesa do cidadão, é isso?
- Cidadão o que, rapá, deixa de ser inocente. Se você abraça todas as leis, você começa comendo biscoito sem gosto, carne sem gordura...quando você menos esperar a sua filha tá enfiada numa burka. - Falava Carlão, gradativamente perdendo controle da situação, e coerência no discurso.
- Carlão, o papo tá ótimo, mas tenho mais coisas pra fazer do que beber na manhã de domingo, valeu? - Digo eu, enquanto me levanto, viro o copo de um gole e o emborco sobre a mesa.
- Entenda, meu amigo. O prazer é o mais novo pecado. O ser humano tem o prazer como objetivo. De que forma poderiamos ser facilmente controlados se estivessemos alcançando o nosso objetivo de vida? Acha que um homem feliz ia ficar ligando pra as amarras sociais?? ACORDA cara!! - Por um instante o carlão parecia transfigurar o seu ser bêbado em um ser profético, mas durou apenas o suficiente para que eu desmontasse o meu próprio olhar julgador, dentre todos os outros que metralhavam o filósofo libertário de boteco.

Ao sair notei que o ambiente já havia lotado. Crianças e adultos rodeavam a gigantesca mesa de café da manhã. Súbito uma criança começa a correr e é apanhado pelo braço pela mãe, que grita com ele: - Menino. Você não sabe que a pressa é inimiga da perfeição?
- Ih, mãe. Não gosto quando você fala isso. Odeio.
- OPA MOCINHO!! O que eu já te falei sobre o ódio? Não se deve odiar nada nem ninguém. - Disse a mãe, crispando os lábios e semi-cerrando os dentes. os mais desavisados enxergariam um ódio manifesto contra o próprio ódio....paradoxal.

Driblei a criança -que a essa altura pedia desculpas à mãe - e sua mãe, mas não deixando de pensar em qual era o sentido de se proibir a urgência. Porque nunca devemos sentir pressa? Porque aquela criança não podia sentir pressa ou ódio? Quando ele estudar o holocausto, ele tem que ter a crística atitude de perdoar Hitler?

Enquanto pensava isso, o garçom dizia ao Carlão para ele se retirar caso pretendesse fumar outro cigarro, pois em ambiente fechado é proibido por lei. Avisou também que a cerveja pararia de ser servida até o horário do almoço, portanto ele buscasse outro local para beber. os Olhares permaneciam cortando o Carlão como as próprias lâminas da razão, empunhadas pelos auto-proclamados censores modernos.
Foi inevitável lembrar que a poucos instantes o Carlão bebia e fumava no mesmo ambiente fechado do qual estava sendo gentilmente enxotado. Senti, por alguns instantes, falta do livre arbítrio, do direito de gostar de quem quisermos e de desgostar de quem quisermos também.

Aguardei a saída do profeta da boemia e o interpelei:

- Meu caro, você tinha razão.
- Sobre a morte do prazer? fato inegável.
- Sobre eu beber devagar demais. Só agora a bebida está fazendo efeito, vamos achar outro bar.

E seguimos, bebendo e fumando de acordo com a moderação imposta por nós mesmos...até que alguém encontre uma brecha legal para que não mais o façamos.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Encontro com a dor




Sem mais delongas, lá vai um conto.






O Bolo Floresta Negra.




Eu me Chamo Carlos, O Carlão.

Estou aqui pra relatar um fato que me ocorreu quando eu tinha apenas 10 anos de idade, ou melhor, estava completando dez anos de idade.
Um fato que envolve um Bolo Floresta Negra e uma filmagem de festa.

Bom, vou parar com o a enrolação e partir para a história:



Era um dia de sol, lembro bem do sol forte. Maldito sol. Malditas nuvens brancas e céu azul. Eu estava com uma camisa azul e um short branco, fatos que fui obrigado a lembrar sempre por causa da fita. Maldita fita.

Sim, a fita. Esse ano, minha mãe tinha me prometido de presente de aniversário uma fita com a gravação do aniversário. Em 1988 era um luxo que nenhuma criança que eu conhecia, além das muito ricas, tinham. Até então eu estava super feliz com a fita. MALDITA FITA.

vale aqui uma pequena pausa pra falar sobre a minha mãe:

Separada quando eu tinha 3 anos de idade e meu irmão tinha 5, por ter sido traída por meu pai - fato que eu soube 20 anos depois através de pessoas que nada tinham a ver com a história - minha mãe se viu obrigada a trabalhar 3 turnos para sustentar os filhos sem deixar que nada os faltasse. E eu falo NADA mesmo. Do mais necessário aos mais supérfluo, tinhamos de curso de inglês a video-games de última geração, em detrimento disso, minha mãe tinha roupas tão puídas quanto a sua vida social e amorosa, que se arrastavam coladas a ela das 4 e meia da manhã, quando entrava no seu primeiro turno de trabalho às 23:30, quando chegava, destroçada do seu último turno de trabalho.
Olhos verdes, coxas grossas, cintura fina. Era uma mulher linda, se auto-destruindo aos poucos com cigarro e desgosto, fingindo a nós e ao mundo todo - inclua-se ela própria - que não se casara de novo por não querer "padrastos para os filhos dela". A preocupação existia, mas fato era que ela não tinha tempo pra respirar fora dos turnos de trabalho...que tempo teria ela de arranjar um namorado? Houveram alguns...rápidos, pouco marcantes. Ela merecia mais.

Voltemos à história.

Conforme citado acima, eu não tinha sido criado por meu pai. Não aprendi com ele a jogar bola, a andar de bicicleta e nem nenhuma outra viadagem parecida.

Mas esse dia eu completaria 10 anos, e teria gravação e tudo. Ele estaria lá. Quem sabe eu cortaria a segunda fatia do bolo floresta negra pra ele(a primeira seria da minha mãe, claro). Tudo isso estaria registrado em filme e eu teria 2 horas da presença de meu pai, pra assistir durante todas as outras horas de ausência. A doçura daquele bolo floresta negra e das fatias cortadas para meu pai e minha mãe, durariam para sempre. Eu estava realmente feliz. Até então.

MALDITO BOLO FLORESTA NEGRA.
MALDITA GRAVAÇÃO.
MALDITOS RAIOS DE SOL E NUVENS BRANCAS.

Começam a chegar os convidados. O telefone toca. Posso ver pela expressão de desespero no rosto cansado de minha mãe que algo está errado. Ela me chama.

- Seu pai, quer falar com você. - Eu atendo.
- Pai, você tá vindo? Vai chegar tarde? - Perguntei ansioso e já esperando pelo pior.
- Olha, meu carro quebrou. Vou fazer o que puder pra aparecer aí, mas não garanto que dê pra eu chegar.


Eu desliguei. nem lembro o que falei em resposta. O bolo floresta negra começava a ficar amargo e eu já sabia que a segunda fatia seria da minha avó.
"Meu carro quebrou??" Será que eu não merecia nem uma desculpa melhorzinha? Se eu tivesse um filho completando dez anos, especialmente um que eu tivesse negligenciado durante os últimos seis anos, eu iria à festa dele nem que fosse a pé.

Segue a festa. Começa a funcionar a cabeça infantil. Foge por um segundo a inteligência e entra a capacidade de fabular da criança. as palavras "Vou fazer o que puder" parecem fazer sentido. Fico feliz de novo.
A cada vez que a buzina toca, meu coração dispara. Fabulo que pode ser ele. Nunca é. Novo parente, novo amigo, nova decepção.
Lá fora eu olho o sol. Brilha sem a menor piedade de mim. MALDITO SOL. Podia ao menos estar chovendo torrencialmente pra que tornasse crível o fato de que pegar um ônibus para o aniversário de dez anos do filho era algo impossível. MALDITO SOL E MALDITAS NUVENS BRANCAS. MALDITO CÉU AZUL, DESTRUÍDOR DO MEU FABULÁRIO, DO MEU DELÍRIO DE CRIANÇA.
Essa tortura se alastrou por mais 4 horas. E eu, esperançoso, insistia pra que não se cortasse ainda o bolo floresta negra.

Os convidados já começavam a ir embora quando eu aceitei que o bolo fosse cortado. primeira fatia, pra minha mãe, claro. Segunda fatia, pra minha avó. Eu até provei do bolo, mas era de um féu inesquecível. Ele e todas as suas malditas bilhares de calorias em forma de diabetes. MALDITO BOLO FLORESTA NEGRA.

Me diverti na festa, claro. Eu tinha dez anos...nessa idade a nossa capacidade de criar, de fabular, vai ao ponto de conseguirmos transformar uma caixa em um carro, um pedaço de madeira em uma espada e uma festa dessas em algo feliz.

A festa teve bons momentos. A gravação. MALDITA GRAVAÇÃO. Foi sem dúvida o maior presente. vale ressaltar que minha mãe só teve como bancar esse presente porque os seus 3 turnos de trabalho eram como editora de pauta em um jornal local, portanto, câmera, assistente de câmera e tudo mais eram mais acessíveis.

Apenas dias depois, quando a fita foi editada é que ela ganhou o caráter de maldita.
Em algumas cenas eu enxergava a presença de minha mãe, em outras eu enxergava a presença de meus amigos, algumas enxergava a presença de desconhecidos(amigos de amigos, sabe). Haviam cenas em que eu enxergava a presença daquelas histórias bem típicas de festa, como o gordo que fica embaixo da mesa detonando os doces e pãezinhos, aquela professora que a gente nunca vai contar a ninguém que achava muito gostosa já naquela época fazendo um carinho despretensioso e deixando-me completamente sem graça... Mas não. nunca me diverti com essa fita. MALDITA FITA. Nunca consegui a assistir sem chorar, porque em todas as cenas eu enxergava a ausência do meu pai.


Hoje. Anos e anos passados às vésperas do meu aniversário de 36 anos, ainda acho extremamente cafona filmagem de aniversário e tento fugir de todas assim que a câmera chega perto de mim, e ODEIO, ODEIO bolo floresta negra.






P.S. : Esse conto é uma obra de ficção e a associação de qualquer fato ou personagem desse conto com pessoas e fatos da vida real é mera coincidência, inventividade e imaginação excessiva.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Orgulho de ser humilde

Bom,

Quase todos que aqui frequentam, vêm apenas para ler os meus contos, sei disso.
Porém, hoje acordei com pensamentos diferentes. Lembranças de coisas que há muito eu tenho pensado, subitamente misturaram-se a coisas que estou vivendo e criaram vida em uma espécie de poesia.

Quem nunca conheceu alguém que orgulha-se da própria modéstia sem ao menos se preocupar com a contradição da frase pronunciada?

Triste e dura como a realidade é, tem sido e será, eis aqui o pequeno monstro que abortei essa manhã:


A presença da ausência


Hoje me choca a presença.

A presença da ausência em tudo

E de tudo.


O orgulho de ser humilde,

De ser o lado A do lado B.

De beber e fumar um baseado

Pra ser diferente do convencional

E criar uma convenção ainda mais excludente em sua essência.

Aceitar as diferenças apenas dos que me são iguais.


De ser o Gandhi déspota.

Ser o Cristo que condena

Sem ter sido condenado por nada ou ninguém.


O totalitarismo alternativo

É ainda mais cruel do que qualquer fascismo convencional.


Hoje eu olho fotos de ontem

E, subitamente, lembro de poesias que nunca li.

Vejo as jogadas perfeitas logo após o cheque mate.


Tento apagá-las

Mas são indeléveis.


Tento mover as peças

Mas o rei está no chão do tabuleiro.


Já sou eu o Cristo que condena.
À guisa de morrer pela humanidade já a matei por mim.

Sou um prato reluzente e límpido entregue nas mãos de um esfomeado.

VAZIO

Toda a metafísica e a semiótica do que poderia ser...

Mas jamais será.


E só o que me incomoda é a presença da ausência


Sempre

E pra sempre.


Ainda que o pra sempre, sempre acabe.

E se torne ausência.


Sempre presente.




Ângelo Pinheiro

domingo, 1 de novembro de 2009

Ecologicamente...correto???

Bom, lá vou eu, me aventurando por um tema polêmico, sobre o qual fui inclusive advertido a não falar, pois por se tratar de um tema delicado eu podia ser entendido de forma incorreta. Ok, ok. Lá vou eu, de qualquer forma.



Continho (Anti)Ecológico

Estava eu um dia desses a abrir meus e-mails, despreocupadamente quando me deparo novamente com um e-mail(spam?) sobre a proteção dos golfinhos que são massacrados nas ilhas faroé(faroese islands, na Dinamarca). Não dei lá muita importância ao e-mail, como a todos os spams que recebo diariamente. Antes de fechar o e-mail, me impressionou uma lista de - ACRDDITEM - 1438 assinaturas virtuais, de pessoas de toda a parte do mundo. Apesar de suspeitar que uns 300 podem ter sido criados pelo originador do spam com a intenção de dar-lhe credibilidade, não deixei de me espantar com a força do e-mail. Continuei a faxina dos meus e-mails, passando por crianças perdidas que garantem ser filho do sobrinho de um colega, fotos de uma garota nua, que garantem ser de uma universitária da turma de medicina de 2009 na USP(mas tenho certeza de que já a vi em 2001 cursando fono na UFGV ou talvez em 2003 cursando psicologia na UEFS) até que cheguei finalmente ao e-mail que eu buscava. Um grande amigo tinha acabado de voltar do canadá e mandara o seu endereço a um seleto grupo de ex-colegas de colégio para uma reunião na sua casa. Ao localizar o e-mail, notei imediatamente que tinha também sido ele a me mandar o e-mail dos golfinhos na ilha lá da dinamarca. Por fim, ignorei o fato coincidente e segui ao encontro dos meus amigos.

Ao chegar lá, lembrei-me de como esse ex-colega era rico. Tratava-se de um daqueles prédios de 5 suítes, 1 apartamento por andar, cada um com uma varanda na qual caberiam o meu apartamento e o meu carro com uma certa folga. Ao notar essa disparidade, lembrei-me também que ele não era tão meu amigo assim. Sempre foi muito pretensioso, prepotente e esnobe. Impressionante como a ausência faz com que as pessoas nos pareçam mais nobres e amigáveis, isso, claro, sem contar a morte, que faz com que migrem de rematados canalhas a pessoas dignas de canonização com a velocidade de uma bala(ok, o trocadilho foi cruel).
Senti um forte impulso de ir embora, em especial quando vi um casal de mendigos que dormia à porta do prédio. A menina - a chamo de menina, pois aparentava ter no máximo 17 anos, o que, subtraindo-se os anos que o desgaste de uma vida nas ruas dá ao ser humano, deduzo que estava ela na casa dos quinze - apesar da tenra idade estava grávida, abraçada a um homem, supostamente o pai da criança ao menos para mim e talvez também para ele(quem sabe também para ela), encolhendo-se de frio embaixo de uma fina camada de jornais usados agrupados à guisa de uma manta.

Não tive coragem de subir imediatamente, na verdade a imagem dos mendigos nadando em uma gritante pobreza, era demais pra que eu aguentasse uma festa pomposa em meio ao esnobismo do recém-chegado ex-colega e ex-grande amigo. Telefonei avisando que não poderia ir, no que ele imediatamente me disse que não me preocupasse. Que mais tarde iriam todos a uma boate e se eu pudesse aparecer seria legal. Ok, disse eu e me esgueirei para o bar mais próximo. Uma cerveja, um cigarro e um pouco de silêncio eram tudo o que eu precisava para pensar um pouco na vida.
Sentei-me à mesa de um bar bastante próximo ao local do "crime" - obviamente enquanto "crime" refiro-me à pomposa festa dada na cobertura de um prédio onde vivia a família rica e tradicional do meu ex-colega e ex-grande amigo, na mesma rua onde reside a desconhecida e pobre família(?) de mendigos - na verdade escolhi esse bar pois queria continuar analisando as duas realidades, tristemente juntas. Queria ver a família dos mendigo e ao mesmo tempo saber quem entrava e saia da festa.
Reconheci alguns rostos, que chegavam em carros dando sinal de luz para o porteiro e soando os seus alarmes, fazendo assim com que o inevitavelmente ruim sono do casal de mendigos fosse perturbado vezes pelos sinais de luz e vezes pelo som dos alarmes.
Alguns davam-lhes moedas e notas de pequeno valor antes de entrar para a festa.
Comecei a pensar então, como a distância tem um poder grande poder de movimentar emoções. É praxe que perdoemos erros cometidos por pessoas que passamos anos sem ver, que estas nos pareçam mais caras e mais adoráveis. Isso sem mencionar os mortos aos quais temos quase uma obrigação moral de adorar, mesmo que tenhamos os visto poucas vezes e mal falado com eles. A distância, sem dúvida traz à tona uma grande carga de emoções. Os problemas distantes são sempre os mais fáceis de solucionar, já que temos sobre eles apenas a visão dogmática e panfletária do "certo e do errado", uma prática maniqueísta que nos deixa a uma distância segura o suficiente para julgar o desconhecido.

Tomei mais algumas cervejas enquanto observava o prédio de luxo. Reacendí na minha mente o fato de que fora ele(o rico ex-colega e ex-grande amigo) a mandar o e-mail das baleias piloto nas ilhas faroé. E comecei um jogo de ligar os pontos que segui fazendo do momento que paguei a conta até o momento em que fui deitar.

Ao chegar em casa, abri novamente os meus e-mails e notei que não apenas o dos golfinhos(que descobri serem baleias-piloto) como dois de crianças desaparecidas, um ensinando que não se pode fumar cigarro ao encher o tanque do combustível e o da universitária nua(sendo esse último irrelevante) haviam sido mandados pelo rico ex-colega e ex-grande amigo. Claro. Era a maneira de se sentir mais humano. Tratando de encabeçar listas de problemas que nos são completamente distantes. Fazer a nossa parte em relação à humanidade, à natureza, ao mundo, enfim.

Mais tarde, entre pesquisas na internet, descobri que a tradição de matança anual das baleias-piloto nas ilhas faroé começaram no ano de 1584, quando após um inverno EXTREMAMENTE frio houveram diversas baixas entre os habitantes da ilha e os mesmos decidiram que se encurralassem as baleias em um local propício, poderiam matar imensos cardumes(se é que pode existir um "cardume de mamíferos") de baleias-piloto, providenciando carne para o alimento e óleo para alimento, combustível que afastava o frio e outras coisas. Soube também que o número de mortes chega a no máximo 0.01 da população de baleias-piloto ao ano, o que é considerado "sustentável" até pelas instituições de proteção a baleias.

Por fim, enchi meu saco de toda essa pesquisa e já estava me preparando para dormir quando toca o meu celular. era o ex-colega e ex-grande amigo rico. Estavam na porta da boate onde eles pretendiam alongar a festa de reencontro e ele, naturalmente, pagaria tudo.
Neguei. já estava suficientemente bêbado e precisava dormir.

Por um minuto desejei que eles estivessem também suficientemente bêbados ou ao menos tivessem moedas e notas de pequeno valor suficientes para os mendigos na porta da boate. pior que a ressaca física é a ressaca moral.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

As sandálias


Boa tarde.

Peço desculpas pela minha ausência nessa semana. Estou ensaiando uma mostra cênica que será apresentada na sexta, sábado e domingo, o que tem me afastado um pouco da blogosfera. Na segunda-feira, devo fazer visitas mais freqüentes aos blogs amigos e retomar a atividade normal.

Por enquanto, brindo-os com mais um conto:


A vida e o futebol.

Era um dia frio na cidade.

Engraçado. Aqui nunca faz frio. Pelo contrário, é sempre um calor infernal que faz com que as camisas empapem de suor em poucos segundos, deixando os meninos agitados, sem camisa de um lado para o outro e as meninas mais quietas. Sentadinhas, assistindo os meninos brincarem e brincando de bonecas. Uma típica visão da infância tropical.

Eu jogava bola sempre.Apesar de péssimo jogador, o que fazia com que me colocassem na posição de defesa ou goleiro. Eu tinha 9 anos de idade e não me importava se jogava bem ou mal. Só queria me divertir. Mas naquele dia estava frio. Muito vento. Eu andava com os meninos da favela, pois no condomínio onde eu residia não havia meninos suficientes para compor sequer um time de futebol. Eles sempre eram os que jogavam melhor. Como se a vida deles dependesse daquilo. A garra com que corriam atrás da bola, evitando que ela sumisse pela linha lateral(que era definida por nós mesmos) era de se admirar. Alguns meninos do condomínio jogavam bem, mas não tinham aquela gana e determinação atrás da bola. Não pareciam depender da bola, como os meninos da favela. Naquela época eu não tinha a menor noção da vida que levavam, das dificuldades que passavam. Eram apenas meninos que moravam na favela próxima e que desciam para jogar bola no nosso condomínio, que tinha um campinho até razoável.

Mas nesse dia o vento sugeria aos meninos outros tipos de brincadeira. Eu, como já havia feito amizade verdadeira com muitos deles, fui convidado a empinar pipa com eles. Na minha rua havia um prédio abandonado. Mais tarde soube que as obras do prédio haviam sido embargadas por motivo de morte do dono da construtora, o que resultou numa batalha judicial entre os filhos, interrompendo a construção. Somente mais tarde também descobri que aquele prédio abandonado servia de abrigo para mendigos, esconderijo para criminosos, ambiente para partilha e roubos e refúgio para uso de diversos tipos de droga. Até então, era apenas um lugar onde se pegava um bom vento para empinar pipa.

Entramos no prédio. Pelo chão eu enxergava vestígios de passagem humana, o que fazia parecer uma expedição arqueológica. Pratos sujos de algo que não era comida. O fundo preto como se houvesse sido queimado, ao lado jaziam colheres igualmente escuras, giletes e velas. Instintivamente, como a criança sempre busca se aproximar do novo, me aventurei em um desses nichos.

- ô rapaz, não mexe nisso não. É o lugar dos sacizeiros, se eles sabem que você mexeu, te dão um tiro.

- E pra que é esse prato?

- Meu pai me falou que se eu visse prato, nunca mexesse, ou é macumba ou é pra cheirar.

Assustado saí dali quase correndo, num passo rápido. Os outros, apesar de saberem do que se tratava, não tinham medo e ralharam imediatamente comigo:

- Ta com medo, barão? Deixe de ser puta e vamos subir.

Subimos pelas escadas, sujas. Nos cantos se via a merda seca dos mendigos, paredes queimadas pelo mijo. Expostos ao sol, os desenhos de urina na parede queimavam, dando um tom amarelado aos tijolos. O cheiro de merda seca e de merda fresca emepesteavam o local. Seguimos. Novos nichos de uso de droga e partilha de roubo se revelavam à medida que subíamos os degraus. Carteiras reviradas e abandonadas, documentos de vítimas, carteiras de identidade, cpf, bijuterias sem valor, sapatos velhos. Tudo que era descartado dos furtos por serem de pouco valor.

Um dos meninos viu um par de sandálias e foi correndo na direção delas.

- Ta quase novo. Alguém deve ter roubado sapatos melhores e deixou elas aqui pra sair usando.

- Porra. Não pega nisso não. Nem dá no seu pé. – Gritei assustado com aquela nova realidade que me era revelada pouco a pouco.

- Não, mas dá no pé do meu pai. Vou dar pra ele.

Mas quando ele se aproximou para pegaras sandálias – que estavam na entrada do que seria um dos quartos da obra abandonada – fez uma cara de espanto. A boca se abria como se tivesse visto um fantasma e o carretel de linha caiu de sua mão.

De repente a sua expressão se transformou e ele deu um sorriso, como quem tinha feito uma descoberta.

- Galera!! Olha pra isso daqui. – Falou com expressão de corajoso. Parecia um verdadeiro explorador descobrindo algo que valia a pena ser observado por todos. Algo inusitado. Novo.

À medida que nos aproximávamos, crescia um cheiro de podre. Um cheiro que eu só havia sentido quando visitei um matadouro de gado na cidade de Cachoeira.

Nos aproximamos e o cheiro de putrefação crescia cada vez mais. Eu andava devagar, assustado, ao passo que os outros iam sem medo algum.

Olhei de longe. Não me atrevia a me aproximar mais. E lá estava ele. Amarrado com fios elétricos. Pés juntos com as mãos, como se amarram porcos, ovelhas e outros animais para vender em feiras. Mas não era um porco. Era um ser humano. O peito nu coberto com uma grossa camada de sangue coagulado, com alguns pontos mais escuros, quase negor, denunciando onde haviam sido efetuados os disparos. O rosto era só metade. Amassado por uma pedra. Um paralelepípedo que estava ao lado de fragmentos de crânio, sangue, muito sangue e massa encefálica. Fiquei paralisado com a cena. A primeira visão que tive da morte.

- Devia ser caguete. – Falou um deles, nem lembro qual.

- Caguete de que? – Perguntei ainda imóvel. Olhos vidrados. Quase tão vidrados quanto os do cadáver em nossa frente.

- Caguete da polícia. Participa das viagens e depois cagueta pra não ir preso. Tem que morrer mesmo. Não é sujeito homem.

- E agora? O que a gente faz?

- Vamo empinar pipa, no alto do prédio. – Falou enquanto pegava no chão o carretel de linha e as sandálias.

Saí correndo da obra abandonada. Fugindo da morte pela primeira vez.

A naturalidade com que eles encararam aquela cena, que para mim foi estarrecedora me fez pensar durante dias. Pensava que eu era mesmo um covarde. Devia ter ignorado o morto e subido pra empinar pipa. Me perguntava se fiz o certo. Se iam achar que eu era um medroso e não iam mais querer ser meus amigos. Pensei isso durante dias e dias, até que ouvi me chamarem na janela.

- Ô barão. Vamos jogar bola?

- Vamos sim. – Desci, feliz por não ser considerado um covarde. Feliz por ainda merecer a amizade deles, apesar de ter fugido.

- Porra, você não devia ter ido embora naquele dia. Cortei a linha de todo mundo, eu tava o cão com aquele vento.

Ninguém comentou a visão do morto. Nunca.

E eles jogavam bola. Firmes. Durões. Como se a vida deles dependesse daquilo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A vida imita a arte e a arte imita a vida.



















Caros,

Hoje, sob fortes influência Chaplinianas e Shakespeareanas, escrevi um poema.

Gostaria da opinião de vocês, especialmente dos poetas que seguem o meu blog, a respeito da mesma.

Sem mais delongas, segue a poesia.


Vida em um ato.

Silêncio! Eu estou em cena.

O foco é meu.

Luzes, holofotes

Tudo voltado para mim.


É a minha grande chance

O meu momento

Contraceno apenas com uma pessoa

O resto não me interessa

O foco é meu

Meu monólogo

Minha cena


O espetáculo prossegue e outros atores surgem da coxia

Contraceno

O foco é meu

O palco é todo meu

Sinto que todos vieram pra ME assistir

O FOCO É MEU!!!


Minha personagem ganha características diferenciadas.

Diferentes do que eu quis

Diferentes do que eu imaginei

Minha personagem é cunhada pelas contracenas obrigatórias

E toma uma forma que eu não conhecia até então


À medida que a cena prossegue

As marcações aparecem

Mas o diretor é etéreo, invisível

E eu ignoro as marcações


Não tenho roteiro

Meu grande monólogo agora se torna uma peça

Contraceno desejando ou não

O show tem que continuar


Por desrespeitar as marcações, erro

Perco as deixas

Falo em momentos errados

Mas a cena continua

Dividir o foco é cada vez mais necessário

Mas continua sendo muito difícil

O foco já não é só meu


Jogos de cena

Improvisações necessárias que não aprendi a fazer

Por achar que o foco era só meu

E quando noto que não,

Já não contraceno como os outros

E minha fé cênica vai embora


Minha energia cai

Não consigo mais tomar o foco

Me encontro no ostracismo

Minha impostação vocal já não alcança as pessoas da primeira fila

Em um espetáculo que já foi só meu

Meu monólogo

Meu foco


Está perto do fim

Os aplausos não serão pra mim,

Se é que haverão aplausos,

Não creio que os ouvirei.


Só então me percebo ator

As marcações agora são claras

O diretor me fita com olhos de repreensão

Ainda não o vejo, e já não sei se o verei


Eu

Ator

Eu

Artífice de mim mesmo



Fim do primeiro ato.



"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance, ria e viva intensamente; antes que a cortina se feche e a peça acabe sem aplausos" Charlie Chaplin

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aqui me tens de regresso.


Caros amigos e seguidores do meu blog,

Meu atual envolvimento com o teatro está me tomando um tempo inacreditável, por isso fiquei realmente um bom tempo sem dar as caras, porém, estou de volta.

Queria pedir desculpas a vocês, mas anuncio que estou REALMENTE de volta e as atualizações voltarão a ser constantes.

Para a minha volta, segue um conto. Espero que gostem.

Abraços


Sabores

Acordei. Tive um sonho estranho sobre amizade. Na verdade é uma merda pra mim sonhar com amizade. No sonho eu reencontrava com os velhos amigos da época de colégio e das brincadeiras de infância. Lembrávamos da época em que brincávamos de esconder na rua, completamente despreocupados com o fato de estarmos na entrada de uma enorme favela. Uma das mais perigosas da cidade(naquela época ainda havia distinção entre uma favela e outra, hoje é tudo igualmente perigoso e fudido).

Nossa única preocupação era encontrar um bom esconderijo e tentar salvar todos no final do jogo. Eu tinha um ótimo esconderijo entre as latas do lixo. Eu ainda tinha nesses dias um forte instinto de preservação minha e dos outros. Não me incomodava o cheiro do lixo e eu ainda tinha esperanças de poder salvar alguém. Enquanto o pegador se esgueirava entre os matos que cresciam vigorosos e enormes à beira dos esgotos eu esperava a minha oportunidade de surgir do meio do lixo e gritar “1, 2, 3 SALVE TODOS”. E esse era eu, INTEIRO. Forte. Surgindo do lixo e salvando todos os meus amigos. Bons tempos.

No sonho que tive, todos ainda tínhamos a mesma energia. Conservávamos aquela força, aquele entusiasmo de quando brincávamos entre o mato crescente e os esgotos. Quando eles, perambulando capturados entre o mato, aguardavam que eu, tal e qual um herói, surgisse do lixo e salvasse todos. Mas esses amigos, na verdade, se tornaram em sua grande maioria ladrões de galinha, viciados em crack ou são apenas representados por um pedaço de mármore e uma coroa de flores secas e despetaladas no cemitério do campo-santo. Por isso, sempre que os encontro – Os sobreviventes, claro – é uma coisa estéril. Uma relação de desconfiança e ódio, onde de um lado alguém tem raiva de você por ter conseguido se tornar alguma coisa no meio de toda aquela merda e de outro lado você desconfia que aquele filho da puta vai te roubar ou te passar a perna na primeira oportunidade em que tiver. Nessas ocasiões até lembramos da brincadeira de esconde-esconde, mas lembramos com muito mais força do cheiro azedo do lixo, do fedor de fermentação do esgoto e do cheiro de merda que brotava entre o matagal. Ninguém se lembra do herói surgindo entre o lixo e eu já não quero salvar mais ninguém além de mim, fugindo o mais rápido que posso do meio desses filhos da puta.

O que é mais foda é que desperto desse sonho com todos os sabores da infância na ponta da língua e olho pra mim. Me enxergo hoje e todos os sabores ganham imediatamente o gosto metálico e inerte do eu atual.

Imediatamente me lembro de quando eu tive gengivite. Na verdade era gengivite ulcerativa necrosante aguda(GUNA) uma doença que só tem quem é imunodepressivo(como os aidéticos) ou quem se trata realmente muito mal.

Eu estava passando por um processo de franca auto-destruição, mas não me sentia mal. Estava num momento de conciência sublime. E quando atingimos esses estados de consciência e notamos a grande merda que o ser humano é, o ato mais digno que podemos ter é cometer uma auto-destruição semi-consciente. Eu bebia de segunda a segunda e fumava uns dois maços de cigarro por dia. Devido às fortes dores de cabeça da ressaca, me entupia de analgésicos toda manhã e naturalmente os remédios me deixavam ainda mais doente.

Minha imunidade baixou e eu conheci a GUNA. Meus dentes começavam a ficar expostos cada dia mais, à medida que as gengivas eram corroídas pela doença, mas eu não me sentia mal, pelo contrário, a exposição dos dentes me deixava com uma cara de mau, e eu adorava isso. Infelizmente as dores excruciantes acompanhavam a estética causada pela corrosão da gengiva numa progressão igualmente veloz.

Não agüentando mais fui ao dentista que me passou uma merda azul pra bochechar. Logo me avisou que entre os riscos que eu corria estavam o de ficar com os dentes escurecidos ou até azulados, a perda de apetite e ardência e formigamento nos lábios durante o tratamento. Fora isso havia também a certeza da perda do paladar, que poderia ser permanente ou durar apenas o tempo do tratamento. EXCELENTE, doutor, troquei um remédio que me deixa doente por outro.

Comecei o tratamento que me livraria da gengivite e todas as manhãs e noites eu bochechava com aquela merda azul.

Progressivamente fui perdendo o paladar. Um dia notei um sabor amargo enquanto comia uma pizza. Reclamei, disse que a pizza daquele restaurante era uma bosta e comecei a me exaltar. O garçom veio de lá correndo, perguntando se eu queria meu dinheiro de volta ou outra pizza, mas que pelo amor de deus calasse a boca porque estava atrapalhando o movimento do restaurante. Mandei ele à merda, peguei minhas coisas, um refrigerante em lata que eu ainda nem tinha aberto e caí fora.

Abri o refrigerante afim de enxaguar a boca e tirar o gosto amargo da pizza. Assim que coloquei o refrigerante na boca, senti o mesmo sabor metálico da pizza. Estava acontecendo. Já podia até dar adeus aos sabores da vida. Passando pela rua, vi um mendigo. Ele estendia a mão as que passavam e por vezes recebia algumas moedas que restavam desprezadas no fundo de alguma bolsa, outras vezes recebia um grito, um movimento de repulsa ou até mesmo um chega pra lá de alguns mais enfurecidos pelo seu mau-cheiro ou simplesmente pelo fato de ele existir tão pobre e sujo, naturalmente recriminando o fato de serem bem-sucedidos na vida.Aos dois tipos de tratamento o mendigo reagia de forma idêntica. Apenas se encolhia no seu cantinho, colocando-se na posição de “não reagente”. Para ele não havia bom nem ruim.

Segui pela rua dando pouca importância ao fato e com o passar dos dias o permanente sabor metálico do nada continuava a me perseguir. Pizza, feijão, carne, arroz, salmão. Qualquer merda que eu comesse era a mesma coisa. Não havia mais sabor, apenas o hábito de mastigar.

Nunca tinha notado que o ato da mastigação era tão nojento. Você mastiga algo até que se torne uma coisa mole e gosmenta. E engole. Com o tempo, já não fazia a menor diferença o que eu comesse. A comida era apenas textura.

Andando novamente pelas ruas, vi o mesmo mendigo que havia visto dias atrás. Dessa vez ele me chama uma atenção de forma especial. Continua sendo enxotado com a mesma naturalidade com que recebe ajuda. Não há diferença entre o escárnio e a esmola. É sempre uma relação estéril e fria. Sem alegria e sem tristeza. Sem sabor.

A poucos metros dele, há uma barraca de cachorro quente. Compro dois e entrego um a ele. Ele me fita com os olhos com um esboço triste do que seria um sorriso, mas não ousa agradecer. Sigo o meu caminho e dou uma mordida no meu cachorro quente. Mastigo, e enquanto ele se mistura com a minha saliva, formando um bolo alimentar espesso. Sinto lembranças de algo que eu gostava. Os pedaços de tomate, a forma com que o molho ajuda a hidratar a massa do cachorro quente. Mas logo vem o gosto metálico e me tira todas as esperanças. MERDA!


quinta-feira, 30 de abril de 2009

A sagrada miséria





Ainda era cedo quando acordei pra estudar. Os primeiros raios de sol raiavam timidamente pela janela e incidiam severamente sobre o livro de direito tributário. Eram as primeiras ordens do dia para o estudo. Passar não era opção. Estudar, menos ainda.

Do outro lado da rua estava Carlão. Lata de cerveja na mão, cigarro nervosamente tragado um atrás do outro. Aguardava o horário que supunha que eu acordaria para lamentar as suas misérias. Nem todos querem ouvir nossas misérias, menos ainda suportá-las. Mas eu era tudo que ele tinha.

- Porra, 8 da manhã, ele já deve ter acordado. - Pensou Carlão rumando em direção ao meu apartamento.
- Ô RAPAZ....ACOOOORDA. - Exclamava Carlão, no topo de sua sutileza.
- Já tô acordado, meu velho, entra aí, mas fala rápido, tô estudando.
- Cara, fudeu! Vou ser demitido.
- Porra Carlão, como assim?
- Fiquei sabendo, preciso conversar. - Jamais admitiria precisar de apoio, isso era o mais próximo que ele podia chegar.
- Tá, vamos lá, mas é rápido, preciso voltar pros estudos.

Saímos em direção ao primeiro bar, onde Carlão puxou uma cadeira pra ele e outra pra mim.
- Senta aí que eu te explico.
- Velho, você sabe que eu não vou beber, preciso passar nesse concurso.
- Você vai passar, tudo que tem feito é estudar. - Exclamou Carlão, numa segurança que só temos quando o problema não é nosso. Ah, como é fácil lidar com a miséria alheia.
- Um monte de pessoas só faz estudar há anos meu velho, não é tão certo assim que eu vou passar.
- Posso falar do meu problema?
- Claro, claro, desculpa.
- Então. Vou ser despedido.
- Mas há quantos anos você está na empresa? - Perguntei, com a mesma segurança que temos quando o problema não é nosso.
- 2 anos. Mas não é esse o caso. Tenho problema de coluna. Vou entrar com atestado médico, pedir licença, quando eu sair da licença recebo meus direitos, meus benefícios.
- Caralho, Carlão, mas isso é fraude.
- Fraude o que, porra? Eu pago INSS todo ano, essa merda não é pra me valer de alguma coisa?
Nesse momento, entra um mendigo. Os pés coalhados de feridas. As mãos trêmulas. Um olhar confuso, pupilas dilatadas ao extremo, talvez pelo medo, talvez pelo abuso de drogas, mais provavelmente pelos dois, um em decorrência do outro independentemente da ordem. Apesar do olhar expressar experiência, aparentava não mais que dezoito anos.
- Dá um trocado, tio? - Pediu voltado pra Carlão, com súbito olhar choroso em troca do olhar confuso, porém mantendo as pupilas dilatadas e o tremos nas mãos.
- Toma aí, meu bom. - Disse Carlão, estendendo uma nota de dois reais. O moleque se distanciou.
- Caralho, Carlão, não tá vendo que ele é um viciado?
- E será que ele não tem motivo pra ser? O cara tá na merda, deixa ele pedir pra não morrer de fome.
- Fome? Ele vai é fumar crack. Aquele menino que ronda lá na rua sim. Não tem uma perna, tem três filhos. Há quem diga que ele fuma crack, mas quando pede dinheiro...a ele eu dou.
- E esse você acha que não come?
- Bom, esquece essa porra, e adianta o assunto, preciso estudar.
- Meu velho, eu vou me encostar pelo INSS, preciso da grana.
- Precisa da grana pra que, Carlão? Pagar seu carro, pagar sua cerveja? Isso é fraude do fisco, porra. Se ao menos você não pudesse trabalhar, não pudesse se mexer, sei lá.
- Tá, tá!! Você tá muito enfiado nesses estudos seus. Meu primo também tá estudando pra essa merda e não tá assim, ficando louco.
- É, deve ser porque ele tem emprego em um turno, tem renda e não tem filho. Fora que ele tem a esposa pra ajudar ele. Porra Carlão, vê se me entende. - Dito isso, me levantei. Na hora da raiva nem pensei nos problema do Carlão, tava muito puto. Precisava estudar mais três horas de tributário pra começar a estudar as mudanças de lei. O Carlão virou pro outro lado e me mandou tomar no cú. Notei a falta de ânimo da assertiva, logo essa frase que el falava com tanto orgulho "Vá tomar no cú". O orgulho dele impediu de demosntrar tristeza e o meu de demonstrar que me importava.

Andando pela rua, até chegar ao apartamento, escutei duas mulheres conversando:

- Pois é, minha filha ela encontrou ele na cama com outra.
- Mais bonita que ela?
- Muito mais.
- E foi por amor?
- Com certeza. Ele ainda colocou ela pra fora de casa e deitou a outra na cama na mesma hora.
- Mas eles tinham filhos?
- Graças a Deus não.
- Pois bem, minha filha. Pena eu sinto é da minha comadre que foi igualzinha a essa daí, mas foi posta pra fora foi junto com os três filhos.

Abri a porta do prédio com aquelas palavras na mente. Então pensei:Como é difícil ser miserável o suficiente para que mereçamos compaixão. É preciso que nos esmeremos muito em ser miseráveis e que sejamos supinamente derrotados, caso contrário, assim como num concurso tomam a nossa vaga.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Pequena cena


A princípio, gostaria de pedir desculpas pela enorme demora entre uma postagem e outra. Isso se deu por minha vida estar passando por muitas loucuras. Também, pelo fato de que estou de férias. Nesse início de férias me dediquei a meus projetos pessoais e, apesar do blog ser um deles, acabei por deixar o blog meio de lado. Além disso, nas férias sempre ficamos meio lentos, né?

Enfim, resolvi agora postar uma pequena cena que me veio à cabeça, influenciado por diversas leituras de férias.  Lá vai.



Soluções


Senhor de meia idade: (demonstrando certo desconforto por estar alí) Boa tarde, gostaria de uma solução pra a minha vida.

Atendente: Senhor, não sei se ficou claro para o senhor, mas isso daqui é prostíbulo.

Senhor de meia idade: Sim, justamente. É que meu problema é de cunho sexual e não achei que deveria falar com um psicanalista.

Atendente: Mas senhor, não é justamente de problemas de cunho sexual que os psicanalistas mais tratam?

Senhor de meia idade: Bom, deixe-me apresentar. Meu nome é Stan e eu sou justamente um psicanalista. Tenho medo de buscar outro psicanalista. de repente eu viraria uma piada interna, sabe? Essa conversa de ética profissional é balela pura.

Atendente: Espera um pouco, quer dizer que em rodas de poker, em bate-papo de bar, vocês falam de seus pacientes?

Stan: Certamente.

Atedente: Então muitos de vocês devem saber que eu sou filha de família rica e trabalho em prostíbulo por não me sentir aceita pela minha família e preferir ser vista com putas a ser vista com os meus pais?

Stan: Sarah? Sarah, paciente do Claus, não é isso?

Sarah: Puta que pariu. Qual é o problema de vocês?

Stan: O deles eu não sei, mas o meu é que não consigo ter uma ereção com mulher alguma. Tenho a impressão de que já tive todas.

Sarah: Mas o senhor já teve muitas?

Stan: São todas parecidas, isso facilita o meu problema.

(Entra um homem de uns 28 anos, aprentemente bêbado)

Rapaz: Sarah, tem alguma puta nova hoje?

Sarah: Claro que sim, Carlão, aguarde um minuto que a chamarei.

Stan: (para Sarah) Ah, a juventude. Ele certamente não tem o meu problema.

Sarah: Pelo contrário, talvez ele tenha a sua cura. Porque não fala com ele?

Stan: (parecendo confuso) Acha que ele poderá me ajudar?

Sarah: Está aqui todo dia, sempre em busca de novas moças, talvez te ajude sim.

Stan: (Aproximando-se do rapaz) Boa tarde, meu jovem.

Carlão: (Gritando com Sarah) Porra, Sarah, quantas vezes preciso repetir que não sou viado. E esse ainda é careca, que decadência, ein?

Stan: Não, não. Deixe-me explicar. Eu sou um psicanalista que aparentemente enjoei das mulheres.

Carlão: Cara, você não entendeu quando eu disse que não sou viado?

Stan: Não é isso. A Sarah me disse que talvez pudesse me ajudar, já que você vem aqui todos os dias em busca de novas mulheres e parece jamais enjoar delas.

Carlão: Ok, meu velho. Enquanto a puta não vem, vamos brincar de psicólogo.
Pra começar, porque você acha que enjoou das mulheres?

Stan: Sinto como se já tivesse tido todas.

Carlão: E teve?

Stan: Algumas delas, mas são muito parecidas.

Carlão: Ok ok.  Vamos do princípio. Porque você come uma mulher?

Stan: Porque eu preciso de sexo?

Carlão: (em um pulo, como quem acabou de achar o problema) AHÁ! Aí está o primeiro erro.

Stan: E porque eu deveria comer uma mulher então?

Carlão: Porque você é homem. Isso é o que fazemos, mesmo que não precisemos.

Stan: Então eu devo fazer sexo contra a minha vontade? Apenas por ser homem? Com todas essas mulheres que parecem fabricadas em série?

Carlão: Meu senhor, presta atenção. O que você precisa mudar não é a mulher, é o seu comportamento.

Stan: (começando a entender, presta enorme atenção) Sim, sim, explique. Mudar como?

Carlão: Você está escolhendo como um consumidor. Quer algo que atenda a uma necessidade específica. Assim que essa necessidade for sanada, Puft, já era.

Stan: Hum. A grosso modo, entendo. Concordo, até. Como deveria...er...escolher, então?

Carlão: Como um colecionador. Os colecionadores jamais se cansam. Por que os colecionadores não escolhem pela função do produto. Eles não escolhem por precisar de . Eles escolhem pra satisfazer outro tipo de desejo.

Stan: Mas são muito parecidas.

Carlão: Mas não são iguais. Colecionadores têm peças diferentes apenas em pequenos detalhes.

Stan: E no caso de ser a mesma mulher?

Carlão: Nunca é a mesma mulher.(levantando o copo) Caso pense que seja, beba. Um gole a mais, um gole a menos, você tem uma mulher diferente.

Stan: (para Carlão) Ok.Ok. Obrigado de qualquer forma. (voltando-se para Sarah) Me vê uma garrafa de Red Label. E manda um abraço pro Claus, tá bom?