
domingo, 1 de novembro de 2009
Ecologicamente...correto???

quarta-feira, 14 de outubro de 2009
As sandálias

Boa tarde.
A vida e o futebol.
Era um dia frio na cidade.
Engraçado. Aqui nunca faz frio. Pelo contrário, é sempre um calor infernal que faz com que as camisas empapem de suor em poucos segundos, deixando os meninos agitados, sem camisa de um lado para o outro e as meninas mais quietas. Sentadinhas, assistindo os meninos brincarem e brincando de bonecas. Uma típica visão da infância tropical.
Eu jogava bola sempre.Apesar de péssimo jogador, o que fazia com que me colocassem na posição de defesa ou goleiro. Eu tinha 9 anos de idade e não me importava se jogava bem ou mal. Só queria me divertir. Mas naquele dia estava frio. Muito vento. Eu andava com os meninos da favela, pois no condomínio onde eu residia não havia meninos suficientes para compor sequer um time de futebol. Eles sempre eram os que jogavam melhor. Como se a vida deles dependesse daquilo. A garra com que corriam atrás da bola, evitando que ela sumisse pela linha lateral(que era definida por nós mesmos) era de se admirar. Alguns meninos do condomínio jogavam bem, mas não tinham aquela gana e determinação atrás da bola. Não pareciam depender da bola, como os meninos da favela. Naquela época eu não tinha a menor noção da vida que levavam, das dificuldades que passavam. Eram apenas meninos que moravam na favela próxima e que desciam para jogar bola no nosso condomínio, que tinha um campinho até razoável.
Mas nesse dia o vento sugeria aos meninos outros tipos de brincadeira. Eu, como já havia feito amizade verdadeira com muitos deles, fui convidado a empinar pipa com eles. Na minha rua havia um prédio abandonado. Mais tarde soube que as obras do prédio haviam sido embargadas por motivo de morte do dono da construtora, o que resultou numa batalha judicial entre os filhos, interrompendo a construção. Somente mais tarde também descobri que aquele prédio abandonado servia de abrigo para mendigos, esconderijo para criminosos, ambiente para partilha e roubos e refúgio para uso de diversos tipos de droga. Até então, era apenas um lugar onde se pegava um bom vento para empinar pipa.
Entramos no prédio. Pelo chão eu enxergava vestígios de passagem humana, o que fazia parecer uma expedição arqueológica. Pratos sujos de algo que não era comida. O fundo preto como se houvesse sido queimado, ao lado jaziam colheres igualmente escuras, giletes e velas. Instintivamente, como a criança sempre busca se aproximar do novo, me aventurei em um desses nichos.
- ô rapaz, não mexe nisso não. É o lugar dos sacizeiros, se eles sabem que você mexeu, te dão um tiro.
- E pra que é esse prato?
- Meu pai me falou que se eu visse prato, nunca mexesse, ou é macumba ou é pra cheirar.
Assustado saí dali quase correndo, num passo rápido. Os outros, apesar de saberem do que se tratava, não tinham medo e ralharam imediatamente comigo:
- Ta com medo, barão? Deixe de ser puta e vamos subir.
Subimos pelas escadas, sujas. Nos cantos se via a merda seca dos mendigos, paredes queimadas pelo mijo. Expostos ao sol, os desenhos de urina na parede queimavam, dando um tom amarelado aos tijolos. O cheiro de merda seca e de merda fresca emepesteavam o local. Seguimos. Novos nichos de uso de droga e partilha de roubo se revelavam à medida que subíamos os degraus. Carteiras reviradas e abandonadas, documentos de vítimas, carteiras de identidade, cpf, bijuterias sem valor, sapatos velhos. Tudo que era descartado dos furtos por serem de pouco valor.
Um dos meninos viu um par de sandálias e foi correndo na direção delas.
- Ta quase novo. Alguém deve ter roubado sapatos melhores e deixou elas aqui pra sair usando.
- Porra. Não pega nisso não. Nem dá no seu pé. – Gritei assustado com aquela nova realidade que me era revelada pouco a pouco.
- Não, mas dá no pé do meu pai. Vou dar pra ele.
Mas quando ele se aproximou para pegaras sandálias – que estavam na entrada do que seria um dos quartos da obra abandonada – fez uma cara de espanto. A boca se abria como se tivesse visto um fantasma e o carretel de linha caiu de sua mão.
De repente a sua expressão se transformou e ele deu um sorriso, como quem tinha feito uma descoberta.
- Galera!! Olha pra isso daqui. – Falou com expressão de corajoso. Parecia um verdadeiro explorador descobrindo algo que valia a pena ser observado por todos. Algo inusitado. Novo.
À medida que nos aproximávamos, crescia um cheiro de podre. Um cheiro que eu só havia sentido quando visitei um matadouro de gado na cidade de Cachoeira.
Nos aproximamos e o cheiro de putrefação crescia cada vez mais. Eu andava devagar, assustado, ao passo que os outros iam sem medo algum.
Olhei de longe. Não me atrevia a me aproximar mais. E lá estava ele. Amarrado com fios elétricos. Pés juntos com as mãos, como se amarram porcos, ovelhas e outros animais para vender
- Devia ser caguete. – Falou um deles, nem lembro qual.
- Caguete de que? – Perguntei ainda imóvel. Olhos vidrados. Quase tão vidrados quanto os do cadáver em nossa frente.
- Caguete da polícia. Participa das viagens e depois cagueta pra não ir preso. Tem que morrer mesmo. Não é sujeito homem.
- E agora? O que a gente faz?
- Vamo empinar pipa, no alto do prédio. – Falou enquanto pegava no chão o carretel de linha e as sandálias.
Saí correndo da obra abandonada. Fugindo da morte pela primeira vez.
A naturalidade com que eles encararam aquela cena, que para mim foi estarrecedora me fez pensar durante dias. Pensava que eu era mesmo um covarde. Devia ter ignorado o morto e subido pra empinar pipa. Me perguntava se fiz o certo. Se iam achar que eu era um medroso e não iam mais querer ser meus amigos. Pensei isso durante dias e dias, até que ouvi me chamarem na janela.
- Ô barão. Vamos jogar bola?
- Vamos sim. – Desci, feliz por não ser considerado um covarde. Feliz por ainda merecer a amizade deles, apesar de ter fugido.
- Porra, você não devia ter ido embora naquele dia. Cortei a linha de todo mundo, eu tava o cão com aquele vento.
Ninguém comentou a visão do morto. Nunca.
E eles jogavam bola. Firmes. Durões. Como se a vida deles dependesse daquilo.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
A vida imita a arte e a arte imita a vida.

Silêncio! Eu estou em cena.
O foco é meu.
Luzes, holofotes
Tudo voltado para mim.
É a minha grande chance
O meu momento
Contraceno apenas com uma pessoa
O resto não me interessa
O foco é meu
Meu monólogo
Minha cena
O espetáculo prossegue e outros atores surgem da coxia
Contraceno
O foco é meu
O palco é todo meu
Sinto que todos vieram pra ME assistir
O FOCO É MEU!!!
Minha personagem ganha características diferenciadas.
Diferentes do que eu quis
Diferentes do que eu imaginei
Minha personagem é cunhada pelas contracenas obrigatórias
E toma uma forma que eu não conhecia até então
À medida que a cena prossegue
As marcações aparecem
Mas o diretor é etéreo, invisível
E eu ignoro as marcações
Não tenho roteiro
Meu grande monólogo agora se torna uma peça
Contraceno desejando ou não
O show tem que continuar
Por desrespeitar as marcações, erro
Perco as deixas
Falo em momentos errados
Mas a cena continua
Dividir o foco é cada vez mais necessário
Mas continua sendo muito difícil
O foco já não é só meu
Jogos de cena
Improvisações necessárias que não aprendi a fazer
Por achar que o foco era só meu
E quando noto que não,
Já não contraceno como os outros
E minha fé cênica vai embora
Minha energia cai
Não consigo mais tomar o foco
Me encontro no ostracismo
Minha impostação vocal já não alcança as pessoas da primeira fila
Em um espetáculo que já foi só meu
Meu monólogo
Meu foco
Está perto do fim
Os aplausos não serão pra mim,
Se é que haverão aplausos,
Não creio que os ouvirei.
Só então me percebo ator
As marcações agora são claras
O diretor me fita com olhos de repreensão
Ainda não o vejo, e já não sei se o verei
Eu
Ator
Eu
Artífice de mim mesmo
Fim do primeiro ato.
"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance, ria e viva intensamente; antes que a cortina se feche e a peça acabe sem aplausos" Charlie Chaplin
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Aqui me tens de regresso.

Caros amigos e seguidores do meu blog,
Acordei. Tive um sonho estranho sobre amizade. Na verdade é uma merda pra mim sonhar com amizade. No sonho eu reencontrava com os velhos amigos da época de colégio e das brincadeiras de infância. Lembrávamos da época em que brincávamos de esconder na rua, completamente despreocupados com o fato de estarmos na entrada de uma enorme favela. Uma das mais perigosas da cidade(naquela época ainda havia distinção entre uma favela e outra, hoje é tudo igualmente perigoso e fudido).
Nossa única preocupação era encontrar um bom esconderijo e tentar salvar todos no final do jogo. Eu tinha um ótimo esconderijo entre as latas do lixo. Eu ainda tinha nesses dias um forte instinto de preservação minha e dos outros. Não me incomodava o cheiro do lixo e eu ainda tinha esperanças de poder salvar alguém. Enquanto o pegador se esgueirava entre os matos que cresciam vigorosos e enormes à beira dos esgotos eu esperava a minha oportunidade de surgir do meio do lixo e gritar “1, 2, 3 SALVE TODOS”. E esse era eu, INTEIRO. Forte. Surgindo do lixo e salvando todos os meus amigos. Bons tempos.
No sonho que tive, todos ainda tínhamos a mesma energia. Conservávamos aquela força, aquele entusiasmo de quando brincávamos entre o mato crescente e os esgotos. Quando eles, perambulando capturados entre o mato, aguardavam que eu, tal e qual um herói, surgisse do lixo e salvasse todos. Mas esses amigos, na verdade, se tornaram em sua grande maioria ladrões de galinha, viciados em crack ou são apenas representados por um pedaço de mármore e uma coroa de flores secas e despetaladas no cemitério do campo-santo. Por isso, sempre que os encontro – Os sobreviventes, claro – é uma coisa estéril. Uma relação de desconfiança e ódio, onde de um lado alguém tem raiva de você por ter conseguido se tornar alguma coisa no meio de toda aquela merda e de outro lado você desconfia que aquele filho da puta vai te roubar ou te passar a perna na primeira oportunidade em que tiver. Nessas ocasiões até lembramos da brincadeira de esconde-esconde, mas lembramos com muito mais força do cheiro azedo do lixo, do fedor de fermentação do esgoto e do cheiro de merda que brotava entre o matagal. Ninguém se lembra do herói surgindo entre o lixo e eu já não quero salvar mais ninguém além de mim, fugindo o mais rápido que posso do meio desses filhos da puta.
O que é mais foda é que desperto desse sonho com todos os sabores da infância na ponta da língua e olho pra mim. Me enxergo hoje e todos os sabores ganham imediatamente o gosto metálico e inerte do eu atual.
Imediatamente me lembro de quando eu tive gengivite. Na verdade era gengivite ulcerativa necrosante aguda(GUNA) uma doença que só tem quem é imunodepressivo(como os aidéticos) ou quem se trata realmente muito mal.
Eu estava passando por um processo de franca auto-destruição, mas não me sentia mal. Estava num momento de conciência sublime. E quando atingimos esses estados de consciência e notamos a grande merda que o ser humano é, o ato mais digno que podemos ter é cometer uma auto-destruição semi-consciente. Eu bebia de segunda a segunda e fumava uns dois maços de cigarro por dia. Devido às fortes dores de cabeça da ressaca, me entupia de analgésicos toda manhã e naturalmente os remédios me deixavam ainda mais doente.
Minha imunidade baixou e eu conheci a GUNA. Meus dentes começavam a ficar expostos cada dia mais, à medida que as gengivas eram corroídas pela doença, mas eu não me sentia mal, pelo contrário, a exposição dos dentes me deixava com uma cara de mau, e eu adorava isso. Infelizmente as dores excruciantes acompanhavam a estética causada pela corrosão da gengiva numa progressão igualmente veloz.
Não agüentando mais fui ao dentista que me passou uma merda azul pra bochechar. Logo me avisou que entre os riscos que eu corria estavam o de ficar com os dentes escurecidos ou até azulados, a perda de apetite e ardência e formigamento nos lábios durante o tratamento. Fora isso havia também a certeza da perda do paladar, que poderia ser permanente ou durar apenas o tempo do tratamento. EXCELENTE, doutor, troquei um remédio que me deixa doente por outro.
Comecei o tratamento que me livraria da gengivite e todas as manhãs e noites eu bochechava com aquela merda azul.
Progressivamente fui perdendo o paladar. Um dia notei um sabor amargo enquanto comia uma pizza. Reclamei, disse que a pizza daquele restaurante era uma bosta e comecei a me exaltar. O garçom veio de lá correndo, perguntando se eu queria meu dinheiro de volta ou outra pizza, mas que pelo amor de deus calasse a boca porque estava atrapalhando o movimento do restaurante. Mandei ele à merda, peguei minhas coisas, um refrigerante em lata que eu ainda nem tinha aberto e caí fora.
Abri o refrigerante afim de enxaguar a boca e tirar o gosto amargo da pizza. Assim que coloquei o refrigerante na boca, senti o mesmo sabor metálico da pizza. Estava acontecendo. Já podia até dar adeus aos sabores da vida. Passando pela rua, vi um mendigo. Ele estendia a mão as que passavam e por vezes recebia algumas moedas que restavam desprezadas no fundo de alguma bolsa, outras vezes recebia um grito, um movimento de repulsa ou até mesmo um chega pra lá de alguns mais enfurecidos pelo seu mau-cheiro ou simplesmente pelo fato de ele existir tão pobre e sujo, naturalmente recriminando o fato de serem bem-sucedidos na vida.Aos dois tipos de tratamento o mendigo reagia de forma idêntica. Apenas se encolhia no seu cantinho, colocando-se na posição de “não reagente”. Para ele não havia bom nem ruim.
Segui pela rua dando pouca importância ao fato e com o passar dos dias o permanente sabor metálico do nada continuava a me perseguir. Pizza, feijão, carne, arroz, salmão. Qualquer merda que eu comesse era a mesma coisa. Não havia mais sabor, apenas o hábito de mastigar.
Nunca tinha notado que o ato da mastigação era tão nojento. Você mastiga algo até que se torne uma coisa mole e gosmenta. E engole. Com o tempo, já não fazia a menor diferença o que eu comesse. A comida era apenas textura.
Andando novamente pelas ruas, vi o mesmo mendigo que havia visto dias atrás. Dessa vez ele me chama uma atenção de forma especial. Continua sendo enxotado com a mesma naturalidade com que recebe ajuda. Não há diferença entre o escárnio e a esmola. É sempre uma relação estéril e fria. Sem alegria e sem tristeza. Sem sabor.
A poucos metros dele, há uma barraca de cachorro quente. Compro dois e entrego um a ele. Ele me fita com os olhos com um esboço triste do que seria um sorriso, mas não ousa agradecer. Sigo o meu caminho e dou uma mordida no meu cachorro quente. Mastigo, e enquanto ele se mistura com a minha saliva, formando um bolo alimentar espesso. Sinto lembranças de algo que eu gostava. Os pedaços de tomate, a forma com que o molho ajuda a hidratar a massa do cachorro quente. Mas logo vem o gosto metálico e me tira todas as esperanças. MERDA!
quinta-feira, 30 de abril de 2009
A sagrada miséria

sexta-feira, 17 de abril de 2009
Pequena cena

A princípio, gostaria de pedir desculpas pela enorme demora entre uma postagem e outra. Isso se deu por minha vida estar passando por muitas loucuras. Também, pelo fato de que estou de férias. Nesse início de férias me dediquei a meus projetos pessoais e, apesar do blog ser um deles, acabei por deixar o blog meio de lado. Além disso, nas férias sempre ficamos meio lentos, né?
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Um outro conto.

Lá se vai mais um conto. Para os que simpatizam com o Carlão, ei-lo novamente.
Aos que se identificam com o clássico Cafajeste, como a eterna personagem, alguns dizem que autobiográfica, de Jece Valadão, eis o romantismo de uma classe esquecida e abominada, sobretudo agora, em tempos da crescente e quase opressiva "liberdade feminina".
Chegava eu no trabalho, pontualmente às 08:00, talvez 07:55, quando me dão um aviso estranho. Muito estranho.
- Carlão! O que é que há, meu irmão? - Pergunto ao entrar na sala em um rompante.
- Eu. Assassinado por uma mulher. - responde Carlão, desolado. Isqueiro na mão, mas sem forças e nem decisão para acender o cigarro. - O pior? Fui eu o mandante do crime.
- Porra, esmiuça isso daí, Carlão! Esmiuça.
- Vamos sair daqui. Não quero ser a piadinha suicída do escritório. - Falou Carlão, se levantando e pairando ante mim. Tal e qual o fantasma dele mesmo.
Esse era o Carlão. Não esse monte de carne mole que estava à minha frente, de gravata. O Carlão de gravata.
