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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

As sandálias


Boa tarde.

Peço desculpas pela minha ausência nessa semana. Estou ensaiando uma mostra cênica que será apresentada na sexta, sábado e domingo, o que tem me afastado um pouco da blogosfera. Na segunda-feira, devo fazer visitas mais freqüentes aos blogs amigos e retomar a atividade normal.

Por enquanto, brindo-os com mais um conto:


A vida e o futebol.

Era um dia frio na cidade.

Engraçado. Aqui nunca faz frio. Pelo contrário, é sempre um calor infernal que faz com que as camisas empapem de suor em poucos segundos, deixando os meninos agitados, sem camisa de um lado para o outro e as meninas mais quietas. Sentadinhas, assistindo os meninos brincarem e brincando de bonecas. Uma típica visão da infância tropical.

Eu jogava bola sempre.Apesar de péssimo jogador, o que fazia com que me colocassem na posição de defesa ou goleiro. Eu tinha 9 anos de idade e não me importava se jogava bem ou mal. Só queria me divertir. Mas naquele dia estava frio. Muito vento. Eu andava com os meninos da favela, pois no condomínio onde eu residia não havia meninos suficientes para compor sequer um time de futebol. Eles sempre eram os que jogavam melhor. Como se a vida deles dependesse daquilo. A garra com que corriam atrás da bola, evitando que ela sumisse pela linha lateral(que era definida por nós mesmos) era de se admirar. Alguns meninos do condomínio jogavam bem, mas não tinham aquela gana e determinação atrás da bola. Não pareciam depender da bola, como os meninos da favela. Naquela época eu não tinha a menor noção da vida que levavam, das dificuldades que passavam. Eram apenas meninos que moravam na favela próxima e que desciam para jogar bola no nosso condomínio, que tinha um campinho até razoável.

Mas nesse dia o vento sugeria aos meninos outros tipos de brincadeira. Eu, como já havia feito amizade verdadeira com muitos deles, fui convidado a empinar pipa com eles. Na minha rua havia um prédio abandonado. Mais tarde soube que as obras do prédio haviam sido embargadas por motivo de morte do dono da construtora, o que resultou numa batalha judicial entre os filhos, interrompendo a construção. Somente mais tarde também descobri que aquele prédio abandonado servia de abrigo para mendigos, esconderijo para criminosos, ambiente para partilha e roubos e refúgio para uso de diversos tipos de droga. Até então, era apenas um lugar onde se pegava um bom vento para empinar pipa.

Entramos no prédio. Pelo chão eu enxergava vestígios de passagem humana, o que fazia parecer uma expedição arqueológica. Pratos sujos de algo que não era comida. O fundo preto como se houvesse sido queimado, ao lado jaziam colheres igualmente escuras, giletes e velas. Instintivamente, como a criança sempre busca se aproximar do novo, me aventurei em um desses nichos.

- ô rapaz, não mexe nisso não. É o lugar dos sacizeiros, se eles sabem que você mexeu, te dão um tiro.

- E pra que é esse prato?

- Meu pai me falou que se eu visse prato, nunca mexesse, ou é macumba ou é pra cheirar.

Assustado saí dali quase correndo, num passo rápido. Os outros, apesar de saberem do que se tratava, não tinham medo e ralharam imediatamente comigo:

- Ta com medo, barão? Deixe de ser puta e vamos subir.

Subimos pelas escadas, sujas. Nos cantos se via a merda seca dos mendigos, paredes queimadas pelo mijo. Expostos ao sol, os desenhos de urina na parede queimavam, dando um tom amarelado aos tijolos. O cheiro de merda seca e de merda fresca emepesteavam o local. Seguimos. Novos nichos de uso de droga e partilha de roubo se revelavam à medida que subíamos os degraus. Carteiras reviradas e abandonadas, documentos de vítimas, carteiras de identidade, cpf, bijuterias sem valor, sapatos velhos. Tudo que era descartado dos furtos por serem de pouco valor.

Um dos meninos viu um par de sandálias e foi correndo na direção delas.

- Ta quase novo. Alguém deve ter roubado sapatos melhores e deixou elas aqui pra sair usando.

- Porra. Não pega nisso não. Nem dá no seu pé. – Gritei assustado com aquela nova realidade que me era revelada pouco a pouco.

- Não, mas dá no pé do meu pai. Vou dar pra ele.

Mas quando ele se aproximou para pegaras sandálias – que estavam na entrada do que seria um dos quartos da obra abandonada – fez uma cara de espanto. A boca se abria como se tivesse visto um fantasma e o carretel de linha caiu de sua mão.

De repente a sua expressão se transformou e ele deu um sorriso, como quem tinha feito uma descoberta.

- Galera!! Olha pra isso daqui. – Falou com expressão de corajoso. Parecia um verdadeiro explorador descobrindo algo que valia a pena ser observado por todos. Algo inusitado. Novo.

À medida que nos aproximávamos, crescia um cheiro de podre. Um cheiro que eu só havia sentido quando visitei um matadouro de gado na cidade de Cachoeira.

Nos aproximamos e o cheiro de putrefação crescia cada vez mais. Eu andava devagar, assustado, ao passo que os outros iam sem medo algum.

Olhei de longe. Não me atrevia a me aproximar mais. E lá estava ele. Amarrado com fios elétricos. Pés juntos com as mãos, como se amarram porcos, ovelhas e outros animais para vender em feiras. Mas não era um porco. Era um ser humano. O peito nu coberto com uma grossa camada de sangue coagulado, com alguns pontos mais escuros, quase negor, denunciando onde haviam sido efetuados os disparos. O rosto era só metade. Amassado por uma pedra. Um paralelepípedo que estava ao lado de fragmentos de crânio, sangue, muito sangue e massa encefálica. Fiquei paralisado com a cena. A primeira visão que tive da morte.

- Devia ser caguete. – Falou um deles, nem lembro qual.

- Caguete de que? – Perguntei ainda imóvel. Olhos vidrados. Quase tão vidrados quanto os do cadáver em nossa frente.

- Caguete da polícia. Participa das viagens e depois cagueta pra não ir preso. Tem que morrer mesmo. Não é sujeito homem.

- E agora? O que a gente faz?

- Vamo empinar pipa, no alto do prédio. – Falou enquanto pegava no chão o carretel de linha e as sandálias.

Saí correndo da obra abandonada. Fugindo da morte pela primeira vez.

A naturalidade com que eles encararam aquela cena, que para mim foi estarrecedora me fez pensar durante dias. Pensava que eu era mesmo um covarde. Devia ter ignorado o morto e subido pra empinar pipa. Me perguntava se fiz o certo. Se iam achar que eu era um medroso e não iam mais querer ser meus amigos. Pensei isso durante dias e dias, até que ouvi me chamarem na janela.

- Ô barão. Vamos jogar bola?

- Vamos sim. – Desci, feliz por não ser considerado um covarde. Feliz por ainda merecer a amizade deles, apesar de ter fugido.

- Porra, você não devia ter ido embora naquele dia. Cortei a linha de todo mundo, eu tava o cão com aquele vento.

Ninguém comentou a visão do morto. Nunca.

E eles jogavam bola. Firmes. Durões. Como se a vida deles dependesse daquilo.

9 comentários:

Valdeir Almeida disse...

Ângelo,

Você não foi covarde, mas sim, humano. Talvez, seus amigos já estavam tão familiarizados com a morte (morte cruel, diga-se de passagem), que em vez de ficarem estarrecidos, foram empinar pipa.

Abraços.

Lucas disse...

Beleza de leitura Ângelo!
Me faz pensar ai que nada de tristeza importava para aqueles meninos que viviam cotidianamente com as misérias de uma favela. Quem nao se assustaria com uma cena de horror daquelas e o cheiro? trazendo a aflição antes do corpo... é o pior terror.
Para eles jogar bola, soltar pipa, se divertir brincando com os amigos era mais importante do que qualquer porra que lhes aconteciam em volta. Ainda mais quando se trata de um caguete fdp hehehehehhe.

Massa mandou ver nesse conto como em todos os outros brother. Tomara que minha análise tenha haver com o sentido da coisa... gostei do Baianês PEGARAS, como outras que rolam ai Pelessas, pegessas etc...

valeu um abraço fera!

AkemiF! disse...

Palmas. õ/*/
Muito bom.

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Gostei deste texto. Só vem confirmar o que psicólogos e outros entendidos dizem: que a normose é a maior peste do sec XXI: habituamo-nos tanto a ver os horrores cometidos pelo ser humano que passamos a considerá-los normal, o que é terrivel; para-se de lutar porque não adianta, é natural, é fruto da sociedade em que vivemos etc. etc. É o que acontece com estes meninos; tão entranhados na violência e na miséria que, ver um homem morto é a coisa mais normal do mundo. è triste mas a normose está instalada e todos nós a sentimos no nosso dia a dia. Belo tema, parabéns. Um beijo e até breve
Emília

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Garota Karioka disse...

Muito bom o texto, relata exatamente a banalização da vida e da morte atualmente.
Claro que ainda existem muitos que se sensilizam, mas o mundo está muito frio e sem sentido.
Ouvimos a todo momento notícias cruéis e acabamos nos acostumando com isso.
Estou segundo!
Até mais.

direitinho disse...

Este segundo texto lê-se um pouco melhor. Talvez pela novidade e uma linguagem característica.
Consegue também enquadra-nos nessa expedição, sentindo a aventura e ao mesmo tempo os medos em todos os cantos e portadas sem portas.
Fiquei curioso - empinar pipa - o que é isso ?

Candice Morais disse...

Muito bom, meu amor!

Beijo

Além da verdade disse...

O conto é maravilhoso, a descrição fantástica, consegui ter a percepção de muitas imagens fortes.
É triste receber informações de condições precárias de diversas pessoas, mas o choque crucial é vivenciar,ver a cores aquela situação, algo impagável, comove até o homem de coração de pedra.
Infelizmente é a realidade, um bom livro que agora está sendo pedido como leitura obrigatória por bons vestibulares é o "Capitães de Areia".Retrata a juventude de meninos da rua que sobrevivem roupando, vivem em um "casarão"

Obrigada por me proporcionar ler esse belo conto.


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Rafaela Caran