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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um outro conto.


Lá se vai mais um conto. Para os que simpatizam com o Carlão, ei-lo novamente. 
Aos que se identificam com o clássico Cafajeste, como a eterna personagem, alguns dizem que autobiográfica, de Jece Valadão, eis o romantismo de uma classe esquecida e abominada, sobretudo agora, em tempos da crescente e quase opressiva "liberdade feminina".



Sobre o dia em que Carlão morreu.

Chegava eu no trabalho, pontualmente às 08:00, talvez 07:55, quando me dão um aviso estranho. Muito estranho.
- O Carlão chegou cedo. Está te esperando na sua sala.
- Fala sério Selma. Quem morreu?
- A julgar pela cara, algum parente próximo.
Subi as escadarias numa empolgação preocupada. Muito diferente das minhas subidas regulares no mesmo horário. Tanto me empolguei que havia me esquecido de bater o ponto. Retorno, puxo o cartão de ponto, o coloco na máquina e olho o cartão do Carlão. 07:43. Há algo de errado, muito errado.
- Carlão! O que é que há, meu irmão? - Pergunto ao entrar na sala em um rompante.
- Uma merda! Uma merda, só isso. - Me responde ele, com um cigarro apagado no canto da boca.
- Ânimo, rapaz. Quem morreu? - Pergunto esboçando um sorriso nervoso e já temendo a resposta.
- Eu. Assassinado por uma mulher. - responde Carlão, desolado. Isqueiro na mão, mas sem forças e nem decisão para acender o cigarro. - O pior? Fui eu o mandante do crime.
- Porra, esmiuça isso daí, Carlão! Esmiuça.
- Vamos sair daqui. Não quero ser a piadinha suicída do escritório. - Falou Carlão, se levantando e pairando ante mim. Tal e qual o fantasma dele mesmo.

Seguimos para a praça em frente ao trabalho. O cigarro ainda no canto da boca. O filtro já molhado. O isqueiro ainda na mão recalcitrante. Fato, jamais havia visto o Carlão tão moribundo. Lembro que no enterro do próprio pai ele voltou-se pra mim, olhos marejados de choro e cigarro no bico, porém aceso, e disse:
 - Vamos adiantar esse processo. Chore tudo o que você tem pra chorar e vamos sair pra tomar uma. Amacia a alma e o coroa com certeza não ia me querer morto ao lado dele.
Esse era o Carlão. Não esse monte de carne mole que estava à minha frente, de gravata. O Carlão de gravata.

- Escuta. Essa é boa. Você lembra da Clarinha?
- Claro, claro. A que você disse que tava comendo.
- Isso, essa. A assassina. - Falou Carlão, vivo pela primeira vez no dia. E acendeu o cigarro. - Não costumo me envolver com esse tipo de mulher, e não devia ter me envolvido. Digo mais.
- Ah, mas a Clarinha é um doce, o que foi que houve?
- Justamente, porra. Experimente passar um dia inteiro bebendo e depois engolir um doce. Não dá. Desanda. No máximo um ovo de codorna e vá lá. Fiquei um dia com essa cobra. Dois, Três. No quarto dia ela me chamou pra dormir na casa dela. Eu fui. Era o começo da minha desgraça.
- Carlão, essa viadagem toda é porque você se apaixonou?
- Escuta, porra. Não tenta adivinhar. - Retrucou o Carlão, se levantando, definitivamente com vida.
- Tá, tá. Fala. 
- Ao quinto dia, senti algo estranho. Passei o dia querendo que ele terminasse. Mas não pra beber, pra encontrar com ela.
- Que bonito, Carlão. Uma alma por trás de tanta pedra, quem diria. - Falei sorrindo sarcásticamente.
- Alma essa que matamos juntos, presta atenção. Fui pra a casa dela novamente. E nos outros dias. Um casalzinho, uma merda de um casalzinho. Com um mês nesse semi-namoro com ares de casamento eu conheci uma amiga dela. A Juliana. Você conhece ela. Trabalha aqui do lado, na farmácia.
- Ahn? A sexy machine? Aquela que faz o pessoal entrar pra comprar aspirina e sair com remédio pro coração?
- ESSSA, ESSA MESMA!! Amiga de infância, calcula? Logo que ela entrou na casa estava trajando um vestidinho preto, mais colado no corpo do que a própria pele. Me olhou de cima a baixo. Escaneava meu corpo e lia toda essa tal alma que eu estava começando a construir. Tomamos dois ou três drinques e ela finalmente soltou a primeira palavra.
- Cal, tá parecendo que acertou ein. Esse tem cara de homem.
- Que é isso, Jú. Não cobiça o que é meu que é feio. - E riram. Mas risos loucos. Frenéticos. Numa espécie de piada que só elas eram capazes de entender.
- Caramba Carlos Santos, que loucura.
- Você não viu da missa um terço, aguarda. Quando ela saiu, a Clarinha veio pra mim e falou bem assim:
- Linda, né?
- Aham - Disfarcei o quanto pude. - bonita, é verdade.
- Não encosta nela, ein? Eu sei no que você tá pensando.
- O outro dia me foi um inferno. Passei o dia pensando no que ela me disse "eu sei no que você tá pensando". Nem eu sabia. Mas foi no sábado passado que se deu a desgraça. Meio dia, me liga a Clarinha. Me dizendo bem assim:
- Meu anjo, passa na casa da Jú e pega uns DVDS que deixei lá? Faz isso por mim? - E me explicou todo o endereço. Eu não podia dizer que não iria. Claro que fui. Quando cheguei lá, ela estava de shortinho de dormir e blusa de seda...camisolinha, porra, camisolinha.
- Caraca Carlão, que sinuca de bico. - Comentei empolgado com a história. 
- Vê só, tá no começo da merda. Ela me mandou entrar e procurar os dvds. abaixei-me no quarto dela. Isso mesmo, NO QUARTO DELA. e comecei a catar. Sabia os títulos, a Clarinha tinha me dito. Achei os três e quando me virei, prestes a sair, me deparo com a Juliana, deitada na cama de calcinha. SÓ DE CALCINHA. e ela me diz:
- Vem cá, tenho que ver se a Cal escolheu um homem de verdade dessa vez.
- Putaquiupariu Carlão! Que que tú fez?
- Olhei pra a cara dela, agradeci, fingi que nada demais estava acontecendo, virei as costas e fui embora. No outro dia pela manhã, me liga a Clarinha:
- Carlão, preciso te ver.
- Carlão? que que houve com "meu anjo"? - Perguntei sorrindo nervoso. - Peguei teus dvds.
- Estou sabendo, estou sabendo de tudo.
- Escuta, não sei o que ela te disse, mas não é verdade.
- Vem logo, Carlão, deixa de conversa. Aliás, vem não, vamos nos encontrar no barzinho, por favor. No junqueira, em frente ao meu apartamento.
- Lá chegando, ela chorava copiosamente. Um copo de cerveja na mão.
- Bonito, Carlão, bonito pra a minha cara.
- Clarinha, eu nem encostei nela. É tudo mentira.
- Mentira nada. Ela tava de roupinha de dormir e te mandou entrar pro quarto dela.
- Mas amor, eu fui embora, eu fui embora.
- Ela te mandou pegar os filmes, você pegou, demorou procurando. Ela estava de calcinha na cama te esperando.
- Clarinha, eu peguei os Dvds e fui embora.
- Que tipo de homem é você?? Que tipo de homem é você? Acha que é isso que eu quero pra mim? SEU FROUXO.

- Pera, pera, pera. Me perdi em algum lugar, não é possível. - Falei atarantado.
- Perdeu porra nenhuma. Quem se perdeu fui eu. Foi um crime em conjunto, meu amigo. Eu fui o mandante e elas me executaram. Ela levantou e foi embora.
- Caralho, Carlão. Nem sei o que te dizer. Deixa o trabalho de hoje pra lá, vamos tomar umas gelosas. 

Sentamos no bar. Abrimos a primeira cerveja às 08:40 da manhã. Lá pelo meio dia, bêbado, talvez sensibilizado pelas pancadass do fim de semana. Ele vira pra mim e fala:

- Ela nem quis os dvds, porra. Nem quis os dvds.

24 comentários:

Tiane Novaes disse...

- Ela nem quis os dvds, porra. Nem quis os dvds.

audhasiduashdisuadhiasudhiuhsiudshdisuhdiu

Portfólio | Roberto Lemos disse...

Véio, me dá o endereço ai agora q essa porra desse DVD já me encheu o saco. Aproveito e vou ver se ela ta só de calcinha mermo.

fernando oliveira disse...

Uma alma por trás de tanta pedra.

Belo exercicio amigo com muita consistência e persistência no relato, no enxerto acima, noto a ajuda do poeta nesta construção. mais contos para que leia e me inspire.

abraços

Fernando

Mônica disse...

Fantástico!!!!!!!!

danilo disse...

Primeira vez que comento aqui. E de início digo que és um conto muito bem elaborado,e que gostaria de tecer alguns elogios quanto a sua contução, pois a mesma sobre unir de foma harmônica a língua culta com a popular. Em relação ao nobre Carlão, PORRA é foda! é isso que dar quando nos homens queremos agir corretamente, as mulheres taxam como viado, pois elas querem são os cafajestes mesmos!

Lucas Pinho disse...

É, imaginei sua figura redigindo esse texto. Acho que as experiências vividas ajudaram muito, ham?? Hehehehe. Abraços, Toblets!

°Farfalla°Shakti° disse...

"Sarpashirsha"
...não vou mentir que no começo tive certo desinteresse... mas em questão de linhas, palavras quem sabe... eu já estava na história... encerrando a etapa dos parabéns!!!!
muito bom.!
etapa ganha, e viva os selos!!!!!!

quero.mais.contos.°

namastê.°

feijão disse...

Insano !!! respect represent ....


Feijão, For Fun Rules

cristinasiqueira disse...

Oi Angelo,
Como uma coisa puxa a outra estou aqui após a visita a um blogue amigo.Gosto do tom ,da picardia,da facilidade com que vc torna tudo gostoso de ler.Sem frescura vc faz boa literatura.Adorei!
Como cheguei agora e a festa já passou lhe desejo SUCESSO e GRANDIOSIDADE.
Venha me visitar,pode convidar a Candice que pelo seu entusiasmo deve ser linda também.

Até mais,

Cris

Sheila disse...

Rá! Mas que coisa essa Clarinha, não??
Hunf!
Coitado do Carlão, hehehe...

Adorei o conto.

Abraços!

Jamerson Silva disse...

Grande Angelo!

Como você sabe, adoro o Carlão. Gosto muito dessa sinceridade quase inocente, desse cafagestismo inveterado.
excelente texto man.
Acredito que, com todo esse talento, muito em breve estarei lendo palavras suas em espaços que vão muito além do blog.

Grande abraço!

Marcel disse...

Saudades do Jece... grande cafageste!

O "vencer" ao qual eu me referia, no último post, é o dos prazos de validade, não o das vitórias. Não sei se isso ficou muito claro...

Caio Abreu disse...

kkkkkkkkkkkkkkk
Muito bom! Vai entender as mulheres... qd o cafajeste resolve ser sério, faz tudo errado tb! kkkkk
Muito legal
Boa semana pra vc
Abraços

Glaucia disse...

kkkkkk

Muito bom!!!

Ri muuuuito! Você escreve muito bem! Parabéns pelo blog!

Grande abraço!

Camile Habib disse...

Eu amei esse post, ainda mais que visualizei o local, rs, escritorio, praça, farmácia, tudo bem familiar!hauhauaua
Me senti como uma mosquinha vendo tudo, hauhauahau
Cada dia que passa fico mais sua fã!
Parabéns, bjs

Ana disse...

O melhor dos seus contos é que você se projeta para a situação contada, imaginei todas as minhas caras de preocupação, curiosidade e espanto, como se eu estivesse o tempo todo do lado do Carlão, como se fosse para mim que ele contava toda a história. Muito bom Angelo, sempre acreditei e continuo muito acreditando nesse dom ai, viu?
Beijos.

Lucas disse...

Man show de bola o conto!
O cara peca por ser homem! uhauhauhauhuauahuahuhauhauha
Esse carlão tem cada historias do caramba! Abraço veio

Gustavo Ramalho disse...

hahahah...mais 1 muito bom!!!
isso só acontece com Carlão..rsrsr

Gabriel Pinheiro disse...

Excelente texto. Talvez o melhor do blog - e o lha que isso não é pouca coisa não.
Fantástica esta confraria das mulheres. Seres estranhos. Talvez, o fim do Carlão fosse o mesmo, a separação da menina. E creio que deve ser assim. Carlão, umã figura como ele, não é homem de docinhos.
Interessante a intrincada relação psicológica de ódio-amor que as mulheres têm com os cafajestes muito bem ilustrada pelo conto. Nada mais perfeito que a escolha do Valadão para orná-lo qual gravura anímica.
Carlão não morreu. Morreria se casasse. Está mais vivo que nunca. Ainda bem!
Abraços,
Gabriel Pinheiro

PS - Sobre mulheres e sua lógica insana escrevi um conto novo no meu blog. Interessante. Vale uma visita. Abraços renovados.

Demian Reis disse...

Adorei a cena em que ela pede para Carlão pegar os DVD's, vi a cumplicidade feminina buscando fazer do homem seu objeto de desejo e suas fantasias. No final homens e mulheres não são tão diferentes quanto gostaríamos de imaginar - como dizia Virginia Wolf.

Está na hora de você escrever uma peça sobre uma feminista xiita que só tem tesão de transar com Carlões.

abcos

Maria disse...

Essas mulheres de hoje em dia, hein?(A)

Anônimo disse...

Man...esse carlão vai entrar pra história...rsrsrsrs...muito bom o texto. Como disseram anteriormente, vc começa a ler, acha q não vai dar em nada e quando percebe já está começando a ler o próximo. E sobre as mulheres, já desisti de tentar entendê-las, acho que o carlão tbm rsrsrsr... Abs,
Daniel

Igor Veronesi disse...

Carlão deu mole. Temos que comer todas elas. Estamos aqui pra isso. Vai virar motivo de xacota na farmácia.
Muito bom, muito bom!!!

Lu disse...

Muito bom, está de parabéns.
Estou virando fan do Carlão, de você não ¬¬ hahaha