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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Sociedade sob controle

Uma palavra que incomoda bastante é "mediocridade".
Eu mesmo, me sinto ultrajado apenas em ouví-la, admito.
Ninguém quer ser o mediocre, jamais. Tudo menos o mediocre. Essa é a verdade anunciada.

Por outro lado temos uma sociedade que não apenas acata a mediocridade, mas a aprova, a deseja e a fomenta.
Estava parado na fila da lotérica enquanto ouvia a conversa de duas senhoras.
A primeira vociferava odiosa: - Meu marido é um vagabundo.
Em tempo que a outra observou: - O meu também não vale nada.
A primeira torna a gritar, porém, iniciando a sua ode. - Não exijo dele presentes, carinho, toda a atenção do mundo. Queria apenas que ele estivesse em casa ao invés de estar bebendo no bar, caindo pelos cantos na rua.
A sua amiga, entra no elogio à mediocridade, endossando a ode da colega. - Ah, disso não posso me queixar. Não posso dizer que meu homem é tudo que uma mulher pode desejar, mas não bebe mais. De vez em quando joga, mas guarda um pouquinho de dinheiro pra a família. - Disse ela com visível alegria, quase um orgulho pelo esposo mediano que possui.

Imediatamente me entreguei a esse inútil hábito de analisar o cotidiano.
E dessa vez não me limitei a analisar de fora, vesti em mim a capa da mediocridade e que susto enorme me tomou conta ao notar que precisava de menos ajustes do que imaginava para assentar como feito por encomenda.

Como bons brasileiros e filhos de colônia que somos, aprendemos, ano após ano, a sermos humildes e conformados, repelir o orgulho - este torpe pecado - com a mesma fúria com que abraçamos a modéstia, chegando a negar a autoria de algo que se considere muito bom, no máximo assumimos a autoria em grupo, jamais sozinhos.

Não se trata de espírito de equipe, como os mais esperançosos podem pretender, trata-se do fato de não considerarmos que merecemos tanto.
Assim como a primeira esposa deseja apenas um marido que não caia pelos cantos de bêbado e a segunda deseja apenas um marido que não jogue todo o ordenado da família, notei que eu desejo apenas um trabalho que me dê dinheiro o suficiente para me manter, apenas o convívio de pessoas que me tenham a mínima consideração. Alguns - e não raro se ouve isso no brasil inteiro, excetuando-se São Paulo, onde a ambição não é pecado mortal - chegam a erguer a mão aos céus para agradecer tão somente a saúde que Deus os deu.

Também é comum ver as pessoas que têm um verdadeiro bom relacionamento dizerem "eu não mereço tanto". Chega a ser uma máxima pró-mediocridade. A falta de merceimento é tamanha que alguns entregam as glórias ao destino e dizem "tenho mesmo é muita sorte".

É vetado o direito de desejar mais. "Ambicioso" é uma palavra, em linhas gerais, vista como  demeritória, "orgulhoso", nem se fala. os poucos que conhecemos que merecem tal adjetivo nem queremos por perto.
Estamos, cada dia mais, nos acomodando com a média. Não podemos desejar mais, pelo contrário, devemos agradecer.

Agradecer o marido que bebe menos, agradecer o salário que nos mantém sem luxos, e agradecer aos céus pela nossa saúde.


Pode parecer contraditório, em verdade chega a ser paradoxal, mas o brasileiro pode se orgulhar de ser um dos povos mais humildes do mundo.



4 comentários:

Gabriel Pinheiro disse...

Nada mais desairoso que a mediania, como diriam os antigos edigo eu também.
Pode soar estranho, vindo de alguém que trabalha com comunica~ção de massa e, portanto, ou adequa-se à mediania ou fada-se ao ostracismo. No entanto, há diversas formas de fazê-lo.
Fazer-se compreendido é uma coisa. Necessária e inconteste, sobretudo para nós.
Acomodar-se é detestável, como nos aclara esta explanação.
Abraços literários, fraternos e literalmente fraternos.

Shê! disse...

Só pra deixar registrado, na tentativa de apagar a dúvida dos desconfiados, que adorei o blog.

Essa situação de escuta presencial de relatos,é um acaso que vicia, esteja certo disso, rs. Encontra-se de tudo ao afinar a percepção dos sentidos para esses relatos cotidianos, desde a lamentável confirmação ilustrada desta mediocridade humana até, com muita sorte, o alívio das exceções de espécimes raras que massageiam os sentidos com suas perspectivas peculiares, responsáveis, creio eu, pelo adiamento da total instalação do caos, rsrs.

I Bienal Rural de Leitura da Bahia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Arlon Souza disse...

Num país em que a desigualdade é mais do que um problema, é uma cultura, nada mais conveniente que a representação da modéstia e da humildade se estabeleça. Disfarçar a ambição, de modo que ela não incomode e seja vista com "bons olhos", se torna uma estratégia. O discurso dos "medíocres" em relação à moral e aos bons costumes está estreitamente ligado ao que eles podem e o outro não pode, na sua condição de mais abastado... Por isso, "não" se pode admitir que tal situação exista, se nem todos têm acesso justo às oportunidades. Sendo assim, as máscaras sociais, mesmo explícitas, se tornam invisíveis a olho nu. Nesse contexto, a mediocridade se confunde com vulnerabilidade, covardia e, principalmente, baixo nível de exercício intelectual.

Obrigado pela reflexão, Ângelo!!! Continue escrevendo, seu texto é bom. Sugestões: busque mais fluência e deixe que as suas personagens se denunciem... O leitor vai entender que "peixe morre pela boca". O texto de opinião é subjetivo, mas pode ser objetivo... ou não... rsrsrsrsrsrsrs... Abração!!!