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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Orgulho de ser humilde

Bom,

Quase todos que aqui frequentam, vêm apenas para ler os meus contos, sei disso.
Porém, hoje acordei com pensamentos diferentes. Lembranças de coisas que há muito eu tenho pensado, subitamente misturaram-se a coisas que estou vivendo e criaram vida em uma espécie de poesia.

Quem nunca conheceu alguém que orgulha-se da própria modéstia sem ao menos se preocupar com a contradição da frase pronunciada?

Triste e dura como a realidade é, tem sido e será, eis aqui o pequeno monstro que abortei essa manhã:


A presença da ausência


Hoje me choca a presença.

A presença da ausência em tudo

E de tudo.


O orgulho de ser humilde,

De ser o lado A do lado B.

De beber e fumar um baseado

Pra ser diferente do convencional

E criar uma convenção ainda mais excludente em sua essência.

Aceitar as diferenças apenas dos que me são iguais.


De ser o Gandhi déspota.

Ser o Cristo que condena

Sem ter sido condenado por nada ou ninguém.


O totalitarismo alternativo

É ainda mais cruel do que qualquer fascismo convencional.


Hoje eu olho fotos de ontem

E, subitamente, lembro de poesias que nunca li.

Vejo as jogadas perfeitas logo após o cheque mate.


Tento apagá-las

Mas são indeléveis.


Tento mover as peças

Mas o rei está no chão do tabuleiro.


Já sou eu o Cristo que condena.
À guisa de morrer pela humanidade já a matei por mim.

Sou um prato reluzente e límpido entregue nas mãos de um esfomeado.

VAZIO

Toda a metafísica e a semiótica do que poderia ser...

Mas jamais será.


E só o que me incomoda é a presença da ausência


Sempre

E pra sempre.


Ainda que o pra sempre, sempre acabe.

E se torne ausência.


Sempre presente.




Ângelo Pinheiro

domingo, 1 de novembro de 2009

Ecologicamente...correto???

Bom, lá vou eu, me aventurando por um tema polêmico, sobre o qual fui inclusive advertido a não falar, pois por se tratar de um tema delicado eu podia ser entendido de forma incorreta. Ok, ok. Lá vou eu, de qualquer forma.



Continho (Anti)Ecológico

Estava eu um dia desses a abrir meus e-mails, despreocupadamente quando me deparo novamente com um e-mail(spam?) sobre a proteção dos golfinhos que são massacrados nas ilhas faroé(faroese islands, na Dinamarca). Não dei lá muita importância ao e-mail, como a todos os spams que recebo diariamente. Antes de fechar o e-mail, me impressionou uma lista de - ACRDDITEM - 1438 assinaturas virtuais, de pessoas de toda a parte do mundo. Apesar de suspeitar que uns 300 podem ter sido criados pelo originador do spam com a intenção de dar-lhe credibilidade, não deixei de me espantar com a força do e-mail. Continuei a faxina dos meus e-mails, passando por crianças perdidas que garantem ser filho do sobrinho de um colega, fotos de uma garota nua, que garantem ser de uma universitária da turma de medicina de 2009 na USP(mas tenho certeza de que já a vi em 2001 cursando fono na UFGV ou talvez em 2003 cursando psicologia na UEFS) até que cheguei finalmente ao e-mail que eu buscava. Um grande amigo tinha acabado de voltar do canadá e mandara o seu endereço a um seleto grupo de ex-colegas de colégio para uma reunião na sua casa. Ao localizar o e-mail, notei imediatamente que tinha também sido ele a me mandar o e-mail dos golfinhos na ilha lá da dinamarca. Por fim, ignorei o fato coincidente e segui ao encontro dos meus amigos.

Ao chegar lá, lembrei-me de como esse ex-colega era rico. Tratava-se de um daqueles prédios de 5 suítes, 1 apartamento por andar, cada um com uma varanda na qual caberiam o meu apartamento e o meu carro com uma certa folga. Ao notar essa disparidade, lembrei-me também que ele não era tão meu amigo assim. Sempre foi muito pretensioso, prepotente e esnobe. Impressionante como a ausência faz com que as pessoas nos pareçam mais nobres e amigáveis, isso, claro, sem contar a morte, que faz com que migrem de rematados canalhas a pessoas dignas de canonização com a velocidade de uma bala(ok, o trocadilho foi cruel).
Senti um forte impulso de ir embora, em especial quando vi um casal de mendigos que dormia à porta do prédio. A menina - a chamo de menina, pois aparentava ter no máximo 17 anos, o que, subtraindo-se os anos que o desgaste de uma vida nas ruas dá ao ser humano, deduzo que estava ela na casa dos quinze - apesar da tenra idade estava grávida, abraçada a um homem, supostamente o pai da criança ao menos para mim e talvez também para ele(quem sabe também para ela), encolhendo-se de frio embaixo de uma fina camada de jornais usados agrupados à guisa de uma manta.

Não tive coragem de subir imediatamente, na verdade a imagem dos mendigos nadando em uma gritante pobreza, era demais pra que eu aguentasse uma festa pomposa em meio ao esnobismo do recém-chegado ex-colega e ex-grande amigo. Telefonei avisando que não poderia ir, no que ele imediatamente me disse que não me preocupasse. Que mais tarde iriam todos a uma boate e se eu pudesse aparecer seria legal. Ok, disse eu e me esgueirei para o bar mais próximo. Uma cerveja, um cigarro e um pouco de silêncio eram tudo o que eu precisava para pensar um pouco na vida.
Sentei-me à mesa de um bar bastante próximo ao local do "crime" - obviamente enquanto "crime" refiro-me à pomposa festa dada na cobertura de um prédio onde vivia a família rica e tradicional do meu ex-colega e ex-grande amigo, na mesma rua onde reside a desconhecida e pobre família(?) de mendigos - na verdade escolhi esse bar pois queria continuar analisando as duas realidades, tristemente juntas. Queria ver a família dos mendigo e ao mesmo tempo saber quem entrava e saia da festa.
Reconheci alguns rostos, que chegavam em carros dando sinal de luz para o porteiro e soando os seus alarmes, fazendo assim com que o inevitavelmente ruim sono do casal de mendigos fosse perturbado vezes pelos sinais de luz e vezes pelo som dos alarmes.
Alguns davam-lhes moedas e notas de pequeno valor antes de entrar para a festa.
Comecei a pensar então, como a distância tem um poder grande poder de movimentar emoções. É praxe que perdoemos erros cometidos por pessoas que passamos anos sem ver, que estas nos pareçam mais caras e mais adoráveis. Isso sem mencionar os mortos aos quais temos quase uma obrigação moral de adorar, mesmo que tenhamos os visto poucas vezes e mal falado com eles. A distância, sem dúvida traz à tona uma grande carga de emoções. Os problemas distantes são sempre os mais fáceis de solucionar, já que temos sobre eles apenas a visão dogmática e panfletária do "certo e do errado", uma prática maniqueísta que nos deixa a uma distância segura o suficiente para julgar o desconhecido.

Tomei mais algumas cervejas enquanto observava o prédio de luxo. Reacendí na minha mente o fato de que fora ele(o rico ex-colega e ex-grande amigo) a mandar o e-mail das baleias piloto nas ilhas faroé. E comecei um jogo de ligar os pontos que segui fazendo do momento que paguei a conta até o momento em que fui deitar.

Ao chegar em casa, abri novamente os meus e-mails e notei que não apenas o dos golfinhos(que descobri serem baleias-piloto) como dois de crianças desaparecidas, um ensinando que não se pode fumar cigarro ao encher o tanque do combustível e o da universitária nua(sendo esse último irrelevante) haviam sido mandados pelo rico ex-colega e ex-grande amigo. Claro. Era a maneira de se sentir mais humano. Tratando de encabeçar listas de problemas que nos são completamente distantes. Fazer a nossa parte em relação à humanidade, à natureza, ao mundo, enfim.

Mais tarde, entre pesquisas na internet, descobri que a tradição de matança anual das baleias-piloto nas ilhas faroé começaram no ano de 1584, quando após um inverno EXTREMAMENTE frio houveram diversas baixas entre os habitantes da ilha e os mesmos decidiram que se encurralassem as baleias em um local propício, poderiam matar imensos cardumes(se é que pode existir um "cardume de mamíferos") de baleias-piloto, providenciando carne para o alimento e óleo para alimento, combustível que afastava o frio e outras coisas. Soube também que o número de mortes chega a no máximo 0.01 da população de baleias-piloto ao ano, o que é considerado "sustentável" até pelas instituições de proteção a baleias.

Por fim, enchi meu saco de toda essa pesquisa e já estava me preparando para dormir quando toca o meu celular. era o ex-colega e ex-grande amigo rico. Estavam na porta da boate onde eles pretendiam alongar a festa de reencontro e ele, naturalmente, pagaria tudo.
Neguei. já estava suficientemente bêbado e precisava dormir.

Por um minuto desejei que eles estivessem também suficientemente bêbados ou ao menos tivessem moedas e notas de pequeno valor suficientes para os mendigos na porta da boate. pior que a ressaca física é a ressaca moral.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

As sandálias


Boa tarde.

Peço desculpas pela minha ausência nessa semana. Estou ensaiando uma mostra cênica que será apresentada na sexta, sábado e domingo, o que tem me afastado um pouco da blogosfera. Na segunda-feira, devo fazer visitas mais freqüentes aos blogs amigos e retomar a atividade normal.

Por enquanto, brindo-os com mais um conto:


A vida e o futebol.

Era um dia frio na cidade.

Engraçado. Aqui nunca faz frio. Pelo contrário, é sempre um calor infernal que faz com que as camisas empapem de suor em poucos segundos, deixando os meninos agitados, sem camisa de um lado para o outro e as meninas mais quietas. Sentadinhas, assistindo os meninos brincarem e brincando de bonecas. Uma típica visão da infância tropical.

Eu jogava bola sempre.Apesar de péssimo jogador, o que fazia com que me colocassem na posição de defesa ou goleiro. Eu tinha 9 anos de idade e não me importava se jogava bem ou mal. Só queria me divertir. Mas naquele dia estava frio. Muito vento. Eu andava com os meninos da favela, pois no condomínio onde eu residia não havia meninos suficientes para compor sequer um time de futebol. Eles sempre eram os que jogavam melhor. Como se a vida deles dependesse daquilo. A garra com que corriam atrás da bola, evitando que ela sumisse pela linha lateral(que era definida por nós mesmos) era de se admirar. Alguns meninos do condomínio jogavam bem, mas não tinham aquela gana e determinação atrás da bola. Não pareciam depender da bola, como os meninos da favela. Naquela época eu não tinha a menor noção da vida que levavam, das dificuldades que passavam. Eram apenas meninos que moravam na favela próxima e que desciam para jogar bola no nosso condomínio, que tinha um campinho até razoável.

Mas nesse dia o vento sugeria aos meninos outros tipos de brincadeira. Eu, como já havia feito amizade verdadeira com muitos deles, fui convidado a empinar pipa com eles. Na minha rua havia um prédio abandonado. Mais tarde soube que as obras do prédio haviam sido embargadas por motivo de morte do dono da construtora, o que resultou numa batalha judicial entre os filhos, interrompendo a construção. Somente mais tarde também descobri que aquele prédio abandonado servia de abrigo para mendigos, esconderijo para criminosos, ambiente para partilha e roubos e refúgio para uso de diversos tipos de droga. Até então, era apenas um lugar onde se pegava um bom vento para empinar pipa.

Entramos no prédio. Pelo chão eu enxergava vestígios de passagem humana, o que fazia parecer uma expedição arqueológica. Pratos sujos de algo que não era comida. O fundo preto como se houvesse sido queimado, ao lado jaziam colheres igualmente escuras, giletes e velas. Instintivamente, como a criança sempre busca se aproximar do novo, me aventurei em um desses nichos.

- ô rapaz, não mexe nisso não. É o lugar dos sacizeiros, se eles sabem que você mexeu, te dão um tiro.

- E pra que é esse prato?

- Meu pai me falou que se eu visse prato, nunca mexesse, ou é macumba ou é pra cheirar.

Assustado saí dali quase correndo, num passo rápido. Os outros, apesar de saberem do que se tratava, não tinham medo e ralharam imediatamente comigo:

- Ta com medo, barão? Deixe de ser puta e vamos subir.

Subimos pelas escadas, sujas. Nos cantos se via a merda seca dos mendigos, paredes queimadas pelo mijo. Expostos ao sol, os desenhos de urina na parede queimavam, dando um tom amarelado aos tijolos. O cheiro de merda seca e de merda fresca emepesteavam o local. Seguimos. Novos nichos de uso de droga e partilha de roubo se revelavam à medida que subíamos os degraus. Carteiras reviradas e abandonadas, documentos de vítimas, carteiras de identidade, cpf, bijuterias sem valor, sapatos velhos. Tudo que era descartado dos furtos por serem de pouco valor.

Um dos meninos viu um par de sandálias e foi correndo na direção delas.

- Ta quase novo. Alguém deve ter roubado sapatos melhores e deixou elas aqui pra sair usando.

- Porra. Não pega nisso não. Nem dá no seu pé. – Gritei assustado com aquela nova realidade que me era revelada pouco a pouco.

- Não, mas dá no pé do meu pai. Vou dar pra ele.

Mas quando ele se aproximou para pegaras sandálias – que estavam na entrada do que seria um dos quartos da obra abandonada – fez uma cara de espanto. A boca se abria como se tivesse visto um fantasma e o carretel de linha caiu de sua mão.

De repente a sua expressão se transformou e ele deu um sorriso, como quem tinha feito uma descoberta.

- Galera!! Olha pra isso daqui. – Falou com expressão de corajoso. Parecia um verdadeiro explorador descobrindo algo que valia a pena ser observado por todos. Algo inusitado. Novo.

À medida que nos aproximávamos, crescia um cheiro de podre. Um cheiro que eu só havia sentido quando visitei um matadouro de gado na cidade de Cachoeira.

Nos aproximamos e o cheiro de putrefação crescia cada vez mais. Eu andava devagar, assustado, ao passo que os outros iam sem medo algum.

Olhei de longe. Não me atrevia a me aproximar mais. E lá estava ele. Amarrado com fios elétricos. Pés juntos com as mãos, como se amarram porcos, ovelhas e outros animais para vender em feiras. Mas não era um porco. Era um ser humano. O peito nu coberto com uma grossa camada de sangue coagulado, com alguns pontos mais escuros, quase negor, denunciando onde haviam sido efetuados os disparos. O rosto era só metade. Amassado por uma pedra. Um paralelepípedo que estava ao lado de fragmentos de crânio, sangue, muito sangue e massa encefálica. Fiquei paralisado com a cena. A primeira visão que tive da morte.

- Devia ser caguete. – Falou um deles, nem lembro qual.

- Caguete de que? – Perguntei ainda imóvel. Olhos vidrados. Quase tão vidrados quanto os do cadáver em nossa frente.

- Caguete da polícia. Participa das viagens e depois cagueta pra não ir preso. Tem que morrer mesmo. Não é sujeito homem.

- E agora? O que a gente faz?

- Vamo empinar pipa, no alto do prédio. – Falou enquanto pegava no chão o carretel de linha e as sandálias.

Saí correndo da obra abandonada. Fugindo da morte pela primeira vez.

A naturalidade com que eles encararam aquela cena, que para mim foi estarrecedora me fez pensar durante dias. Pensava que eu era mesmo um covarde. Devia ter ignorado o morto e subido pra empinar pipa. Me perguntava se fiz o certo. Se iam achar que eu era um medroso e não iam mais querer ser meus amigos. Pensei isso durante dias e dias, até que ouvi me chamarem na janela.

- Ô barão. Vamos jogar bola?

- Vamos sim. – Desci, feliz por não ser considerado um covarde. Feliz por ainda merecer a amizade deles, apesar de ter fugido.

- Porra, você não devia ter ido embora naquele dia. Cortei a linha de todo mundo, eu tava o cão com aquele vento.

Ninguém comentou a visão do morto. Nunca.

E eles jogavam bola. Firmes. Durões. Como se a vida deles dependesse daquilo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A vida imita a arte e a arte imita a vida.



















Caros,

Hoje, sob fortes influência Chaplinianas e Shakespeareanas, escrevi um poema.

Gostaria da opinião de vocês, especialmente dos poetas que seguem o meu blog, a respeito da mesma.

Sem mais delongas, segue a poesia.


Vida em um ato.

Silêncio! Eu estou em cena.

O foco é meu.

Luzes, holofotes

Tudo voltado para mim.


É a minha grande chance

O meu momento

Contraceno apenas com uma pessoa

O resto não me interessa

O foco é meu

Meu monólogo

Minha cena


O espetáculo prossegue e outros atores surgem da coxia

Contraceno

O foco é meu

O palco é todo meu

Sinto que todos vieram pra ME assistir

O FOCO É MEU!!!


Minha personagem ganha características diferenciadas.

Diferentes do que eu quis

Diferentes do que eu imaginei

Minha personagem é cunhada pelas contracenas obrigatórias

E toma uma forma que eu não conhecia até então


À medida que a cena prossegue

As marcações aparecem

Mas o diretor é etéreo, invisível

E eu ignoro as marcações


Não tenho roteiro

Meu grande monólogo agora se torna uma peça

Contraceno desejando ou não

O show tem que continuar


Por desrespeitar as marcações, erro

Perco as deixas

Falo em momentos errados

Mas a cena continua

Dividir o foco é cada vez mais necessário

Mas continua sendo muito difícil

O foco já não é só meu


Jogos de cena

Improvisações necessárias que não aprendi a fazer

Por achar que o foco era só meu

E quando noto que não,

Já não contraceno como os outros

E minha fé cênica vai embora


Minha energia cai

Não consigo mais tomar o foco

Me encontro no ostracismo

Minha impostação vocal já não alcança as pessoas da primeira fila

Em um espetáculo que já foi só meu

Meu monólogo

Meu foco


Está perto do fim

Os aplausos não serão pra mim,

Se é que haverão aplausos,

Não creio que os ouvirei.


Só então me percebo ator

As marcações agora são claras

O diretor me fita com olhos de repreensão

Ainda não o vejo, e já não sei se o verei


Eu

Ator

Eu

Artífice de mim mesmo



Fim do primeiro ato.



"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance, ria e viva intensamente; antes que a cortina se feche e a peça acabe sem aplausos" Charlie Chaplin

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aqui me tens de regresso.


Caros amigos e seguidores do meu blog,

Meu atual envolvimento com o teatro está me tomando um tempo inacreditável, por isso fiquei realmente um bom tempo sem dar as caras, porém, estou de volta.

Queria pedir desculpas a vocês, mas anuncio que estou REALMENTE de volta e as atualizações voltarão a ser constantes.

Para a minha volta, segue um conto. Espero que gostem.

Abraços


Sabores

Acordei. Tive um sonho estranho sobre amizade. Na verdade é uma merda pra mim sonhar com amizade. No sonho eu reencontrava com os velhos amigos da época de colégio e das brincadeiras de infância. Lembrávamos da época em que brincávamos de esconder na rua, completamente despreocupados com o fato de estarmos na entrada de uma enorme favela. Uma das mais perigosas da cidade(naquela época ainda havia distinção entre uma favela e outra, hoje é tudo igualmente perigoso e fudido).

Nossa única preocupação era encontrar um bom esconderijo e tentar salvar todos no final do jogo. Eu tinha um ótimo esconderijo entre as latas do lixo. Eu ainda tinha nesses dias um forte instinto de preservação minha e dos outros. Não me incomodava o cheiro do lixo e eu ainda tinha esperanças de poder salvar alguém. Enquanto o pegador se esgueirava entre os matos que cresciam vigorosos e enormes à beira dos esgotos eu esperava a minha oportunidade de surgir do meio do lixo e gritar “1, 2, 3 SALVE TODOS”. E esse era eu, INTEIRO. Forte. Surgindo do lixo e salvando todos os meus amigos. Bons tempos.

No sonho que tive, todos ainda tínhamos a mesma energia. Conservávamos aquela força, aquele entusiasmo de quando brincávamos entre o mato crescente e os esgotos. Quando eles, perambulando capturados entre o mato, aguardavam que eu, tal e qual um herói, surgisse do lixo e salvasse todos. Mas esses amigos, na verdade, se tornaram em sua grande maioria ladrões de galinha, viciados em crack ou são apenas representados por um pedaço de mármore e uma coroa de flores secas e despetaladas no cemitério do campo-santo. Por isso, sempre que os encontro – Os sobreviventes, claro – é uma coisa estéril. Uma relação de desconfiança e ódio, onde de um lado alguém tem raiva de você por ter conseguido se tornar alguma coisa no meio de toda aquela merda e de outro lado você desconfia que aquele filho da puta vai te roubar ou te passar a perna na primeira oportunidade em que tiver. Nessas ocasiões até lembramos da brincadeira de esconde-esconde, mas lembramos com muito mais força do cheiro azedo do lixo, do fedor de fermentação do esgoto e do cheiro de merda que brotava entre o matagal. Ninguém se lembra do herói surgindo entre o lixo e eu já não quero salvar mais ninguém além de mim, fugindo o mais rápido que posso do meio desses filhos da puta.

O que é mais foda é que desperto desse sonho com todos os sabores da infância na ponta da língua e olho pra mim. Me enxergo hoje e todos os sabores ganham imediatamente o gosto metálico e inerte do eu atual.

Imediatamente me lembro de quando eu tive gengivite. Na verdade era gengivite ulcerativa necrosante aguda(GUNA) uma doença que só tem quem é imunodepressivo(como os aidéticos) ou quem se trata realmente muito mal.

Eu estava passando por um processo de franca auto-destruição, mas não me sentia mal. Estava num momento de conciência sublime. E quando atingimos esses estados de consciência e notamos a grande merda que o ser humano é, o ato mais digno que podemos ter é cometer uma auto-destruição semi-consciente. Eu bebia de segunda a segunda e fumava uns dois maços de cigarro por dia. Devido às fortes dores de cabeça da ressaca, me entupia de analgésicos toda manhã e naturalmente os remédios me deixavam ainda mais doente.

Minha imunidade baixou e eu conheci a GUNA. Meus dentes começavam a ficar expostos cada dia mais, à medida que as gengivas eram corroídas pela doença, mas eu não me sentia mal, pelo contrário, a exposição dos dentes me deixava com uma cara de mau, e eu adorava isso. Infelizmente as dores excruciantes acompanhavam a estética causada pela corrosão da gengiva numa progressão igualmente veloz.

Não agüentando mais fui ao dentista que me passou uma merda azul pra bochechar. Logo me avisou que entre os riscos que eu corria estavam o de ficar com os dentes escurecidos ou até azulados, a perda de apetite e ardência e formigamento nos lábios durante o tratamento. Fora isso havia também a certeza da perda do paladar, que poderia ser permanente ou durar apenas o tempo do tratamento. EXCELENTE, doutor, troquei um remédio que me deixa doente por outro.

Comecei o tratamento que me livraria da gengivite e todas as manhãs e noites eu bochechava com aquela merda azul.

Progressivamente fui perdendo o paladar. Um dia notei um sabor amargo enquanto comia uma pizza. Reclamei, disse que a pizza daquele restaurante era uma bosta e comecei a me exaltar. O garçom veio de lá correndo, perguntando se eu queria meu dinheiro de volta ou outra pizza, mas que pelo amor de deus calasse a boca porque estava atrapalhando o movimento do restaurante. Mandei ele à merda, peguei minhas coisas, um refrigerante em lata que eu ainda nem tinha aberto e caí fora.

Abri o refrigerante afim de enxaguar a boca e tirar o gosto amargo da pizza. Assim que coloquei o refrigerante na boca, senti o mesmo sabor metálico da pizza. Estava acontecendo. Já podia até dar adeus aos sabores da vida. Passando pela rua, vi um mendigo. Ele estendia a mão as que passavam e por vezes recebia algumas moedas que restavam desprezadas no fundo de alguma bolsa, outras vezes recebia um grito, um movimento de repulsa ou até mesmo um chega pra lá de alguns mais enfurecidos pelo seu mau-cheiro ou simplesmente pelo fato de ele existir tão pobre e sujo, naturalmente recriminando o fato de serem bem-sucedidos na vida.Aos dois tipos de tratamento o mendigo reagia de forma idêntica. Apenas se encolhia no seu cantinho, colocando-se na posição de “não reagente”. Para ele não havia bom nem ruim.

Segui pela rua dando pouca importância ao fato e com o passar dos dias o permanente sabor metálico do nada continuava a me perseguir. Pizza, feijão, carne, arroz, salmão. Qualquer merda que eu comesse era a mesma coisa. Não havia mais sabor, apenas o hábito de mastigar.

Nunca tinha notado que o ato da mastigação era tão nojento. Você mastiga algo até que se torne uma coisa mole e gosmenta. E engole. Com o tempo, já não fazia a menor diferença o que eu comesse. A comida era apenas textura.

Andando novamente pelas ruas, vi o mesmo mendigo que havia visto dias atrás. Dessa vez ele me chama uma atenção de forma especial. Continua sendo enxotado com a mesma naturalidade com que recebe ajuda. Não há diferença entre o escárnio e a esmola. É sempre uma relação estéril e fria. Sem alegria e sem tristeza. Sem sabor.

A poucos metros dele, há uma barraca de cachorro quente. Compro dois e entrego um a ele. Ele me fita com os olhos com um esboço triste do que seria um sorriso, mas não ousa agradecer. Sigo o meu caminho e dou uma mordida no meu cachorro quente. Mastigo, e enquanto ele se mistura com a minha saliva, formando um bolo alimentar espesso. Sinto lembranças de algo que eu gostava. Os pedaços de tomate, a forma com que o molho ajuda a hidratar a massa do cachorro quente. Mas logo vem o gosto metálico e me tira todas as esperanças. MERDA!